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Renda fixa

Selic parou de cair em 13,75%: onde a renda fixa ainda paga bem

O Copom manteve a Selic em 13,75% e interrompeu os cortes. Veja onde a renda fixa ainda paga bem, quanto rende cada opção e os riscos de cada uma.

13 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • Em 4 de novembro, o Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano, por unanimidade, e interrompeu uma sequência de cinco cortes iniciada em março.
  • O próprio Banco Central elevou a projeção de inflação para 5,6% em 2026 e 4,7% em 2027, o que reduz o espaço para novos cortes no curto prazo.
  • Em 5 de novembro, o Tesouro IPCA+ 2032 pagava IPCA + 7,92% ao ano, e o Prefixado 2032, 15,34% ao ano, segundo a InfoMoney.
  • Com o CDI em 13,65%, R$ 10 mil em um CDB de 100% do CDI por dois anos rendem cerca de R$ 2.479 líquidos, pelas nossas contas.
  • Taxas altas não eliminam riscos: prefixados e IPCA+ oscilam de preço antes do vencimento, e só quem leva o título até o fim recebe a taxa contratada.

Opinião. Artigo da Redação Ventach com análise e posição editorial; os fatos citados têm fonte nas referências ao final, os exemplos são simulações e nada aqui é recomendação individual.

A Selic parou de cair. Na quarta-feira, 4 de novembro, o Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom, manteve a taxa básica de juros em 13,75% ao ano, por unanimidade. Foi a primeira pausa depois de cinco reduções seguidas, que vinham desde março e tinham levado a taxa de 15% para o nível atual. Para quem investe em renda fixa, a notícia é boa no curto prazo: o rendimento dos pós-fixados continua alto por mais tempo.

A pergunta que mais ouvimos depois de uma decisão como essa é simples: e agora, onde colocar o dinheiro? Neste artigo, explicamos por que o Copom parou, o que mudou nos preços do Tesouro Direto, quanto rende cada tipo de renda fixa em reais e quais riscos vêm junto com taxas tão altas. Também dizemos o que faríamos, com a ressalva de sempre: cada pessoa tem prazo, objetivo e reserva diferentes. Se você ainda está começando, o guia de renda fixa para iniciantes explica o básico antes.

Por que o Copom manteve a Selic em 13,75%

O comunicado da 282ª reunião deixa claro o que pesou. O Banco Central descreveu um ambiente externo mais adverso, com o prolongamento dos conflitos no Oriente Médio pressionando o preço do petróleo, e um cenário doméstico em que a inflação cheia e os núcleos aceleraram e ficaram acima do teto da meta. As expectativas do Boletim Focus para o IPCA subiram para 5,2% em 2026 e 4,8% em 2027.

O dado mais revelador está na tabela de projeções do próprio Copom. No cenário de referência, a inflação esperada passou para 5,6% em 2026, 4,7% em 2027 e 3,5% no segundo trimestre de 2028, o horizonte que o comitê usa para calibrar os juros. A meta é de 3%. Em outras palavras, mesmo com a Selic em 13,75%, o Banco Central ainda não vê a inflação voltando ao centro da meta no prazo que considera relevante. O comunicado também cita a política fiscal e pede "serenidade e cautela".

O mercado já esperava a pausa. Um levantamento com 105 instituições citado pelo Poder360 mostrou que 72 apostavam na manutenção e 33 em um corte de 0,25 ponto. A mudança de expectativa veio depois do segundo turno de 25 de outubro, quando dólar, bolsa e juros futuros tiveram dias de forte volatilidade. Contamos esse episódio em o que mudou depois da eleição.

Gráfico de linhas com a meta da Selic em 2026: 15% em janeiro, 14,75% em março, 14,50% em abril, 14,25% em junho, 14% em agosto, 13,75% em setembro e 13,75% em novembro, quando o Copom interrompeu os cortes
Meta da taxa Selic depois de cada reunião do Copom em 2026, em % ao ano. Fonte: Banco Central do Brasil, série 432 do SGS.

A próxima reunião, a última do ano, acontece nos dias 8 e 9 de dezembro. A ata da reunião de novembro sai em 10 de novembro e costuma detalhar o raciocínio do comitê. Vamos atualizar este artigo depois da decisão de dezembro.

O que a pausa significa para quem investe

Quando a Selic para de cair, três grupos de investimentos reagem de formas diferentes:

  • Pós-fixados (Tesouro Selic, CDBs, LCIs e LCAs atrelados ao CDI, fundos DI): o rendimento segue a Selic. Com a taxa parada em 13,75%, o CDI fica perto de 13,65% ao ano, e o investidor continua recebendo juros altos sem oscilação relevante de preço.
  • Prefixados: a taxa é definida na compra. Se você compra hoje e leva até o vencimento, recebe exatamente o combinado. No caminho, o preço sobe quando os juros futuros caem e desce quando sobem.
  • Atrelados à inflação (Tesouro IPCA+, debêntures e CDBs IPCA+): pagam a inflação do período mais uma taxa fixa. Também oscilam de preço antes do vencimento, em geral mais do que os prefixados de mesmo prazo.

É aqui que entra uma ideia que muita gente demora a aprender: renda fixa não é sinônimo de rendimento fixo. O título promete uma taxa, mas o valor que você vê no extrato muda todos os dias para quem não é pós-fixado. Esse é justamente o ponto central do livro Renda Fixa Não É Fixa!Parceiro, de Marília Fontes, sócia da Nord Investimentos e mestre em economia pelo Insper. A autora explica, em linguagem acessível, como se formam os preços dos títulos e por que a marcação a mercado assusta quem não a conhece. Para um momento como este, em que os títulos longos pagam taxas raras, é uma leitura que ajuda a separar oportunidade de risco.

Onde a renda fixa ainda paga bem, em números

Os preços do Tesouro Direto mudam a cada dia útil. No fechamento de 5 de novembro, um dia depois da decisão do Copom, as taxas eram estas, segundo a InfoMoney:

TítuloTaxa ao anoVencimento
Tesouro Selic 2031Selic + 0,1064%março de 2031
Tesouro Prefixado 202914,94%janeiro de 2029
Tesouro Prefixado 203215,34%janeiro de 2032
Tesouro IPCA+ 2032IPCA + 7,92%agosto de 2032
Tesouro IPCA+ 2040IPCA + 7,62%agosto de 2040
Tesouro IPCA+ 2050IPCA + 7,48%agosto de 2050

Para comparar coisas diferentes, vale olhar o juro real, ou seja, o quanto cada aplicação paga acima da inflação. A conta não é exata, porque a inflação futura é desconhecida, mas dá uma boa ideia. Usando a mediana do Focus para 2027, de 4,8%, um CDI de 13,65% equivale a um juro real de cerca de 8,4% ao ano. A poupança, que rende 0,5% ao mês mais a TR quando a Selic está acima de 8,5%, fica em torno de 1,3% real, sem contar a TR. O artigo sobre juros reais e a equação de Fisher mostra como fazer essa conta.

Gráfico de barras horizontais com o juro real aproximado: CDI de 13,65% equivale a 8,44% acima da inflação esperada, Tesouro IPCA+ 2032 paga 7,92%, Tesouro IPCA+ 2050 paga 7,48% e a poupança cerca de 1,31%
Juro real aproximado, antes do Imposto de Renda, em % ao ano. CDI e poupança descontados do IPCA de 4,8% esperado pelo Focus para 2027; IPCA+ com as taxas de 5/11/2026. Cálculo da Ventach com dados do Banco Central e da InfoMoney.

O gráfico mostra duas coisas. A primeira é que, hoje, o pós-fixado paga um juro real parecido com o do IPCA+, com muito menos oscilação. A segunda é que a diferença está no prazo: o CDI de 13,65% vale para agora, e ninguém sabe onde estará em 2028. Já o IPCA+ 2032 garante quase 8% acima da inflação por quase seis anos, para quem levar o título até o fim.

Quanto isso dá em reais

Fizemos as contas para R$ 10 mil:

  • CDB de 100% do CDI por 12 meses, com o CDI em 13,65%: cerca de R$ 1.365 brutos e R$ 1.126 líquidos, com IR de 17,5%.
  • O mesmo CDB por 24 meses, se o CDI ficasse em 13,65%: cerca de R$ 2.916 brutos e R$ 2.479 líquidos, com IR de 15%.
  • LCI ou LCA de 90% do CDI por 12 meses, isentas de IR para pessoa física: cerca de R$ 1.229, mais do que o CDB de 100% no mesmo prazo.

Se o CDI caísse meio ponto e ficasse em 13,15% durante os dois anos, o líquido do CDB de 24 meses cairia para cerca de R$ 2.382. A diferença de R$ 97 em dois anos mostra que uma decisão isolada do Copom pesa pouco; o que pesa é por quanto tempo os juros ficam altos. Simule com seus números:

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Conteúdo educativo. As simulações são estimativas e não constituem recomendação de investimento.

Desenhos em preto e branco de uma cédula de 1 cruzeiro com as inscrições República dos Estados Unidos do Brasil e Banco Central, com o prédio do banco no verso e um medalhão com o número 1 ao centro
Projeto de cédula de 1 cruzeiro com a inscrição Banco Central, de 1966, nos primeiros anos da instituição, criada pela Lei 4.595, de dezembro de 1964. Imagem: Governo do Brasil / Museu de Valores do Banco Central do Brasil, via Wikimedia Commons, domínio público.

Os riscos que vêm junto com juros altos

Taxas de 15% ao ano no prefixado e de quase 8% acima da inflação no IPCA+ não aparecem por acaso. Elas refletem a desconfiança do mercado com a inflação e com as contas públicas. Três riscos merecem atenção:

  1. 1Marcação a mercado. Se os juros futuros subirem mais, o preço dos prefixados e do IPCA+ cai. Quem precisar vender antes do vencimento pode ter perda. Explicamos o mecanismo em Tesouro IPCA+ e marcação a mercado.
  2. 2Crédito. CDBs, LCIs e LCAs têm a garantia do FGC até R$ 250 mil por CPF e por instituição, com teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos. Debêntures e fundos de crédito não têm. Taxas muito acima da média costumam esconder risco maior. Veja como funciona em FGC: como funciona a garantia.
  3. 3Liquidez. Muitos CDBs com taxa maior só permitem resgate no vencimento. Dinheiro de emergência não deve ficar preso em aplicações assim.

Atenção: desconfie de quem promete "renda fixa de 2% ao mês" ou rentabilidade garantida acima do CDI sem explicar o risco. Com o CDI em 13,65% ao ano, isso equivale a mais de 170% do CDI, e não existe almoço grátis nessa faixa.

O melhor argumento contrário

O argumento mais forte contra travar taxas longas agora é este: os juros podem subir mais. Antes da reunião de novembro, as opções de Copom negociadas na B3 chegaram a atribuir quase 18% de chance a uma alta da Selic em dezembro, segundo a NeoFeed, e o comunicado manteve o tom duro, com riscos de inflação "com assimetria altista". Se isso acontecer, quem comprou IPCA+ ou prefixado hoje verá o preço cair no curto prazo, e quem ficou no pós-fixado vai ganhar mais. Para esse investidor, esperar no CDI, com liquidez diária, seria a escolha mais prudente.

O argumento é legítimo, e concordamos com parte dele: ninguém sabe o pico dos juros, e tentar acertá-lo é um jogo de adivinhação. Mas ele tem um limite. Quem compra um título para levar até o vencimento não precisa acertar o pico; precisa de uma taxa que, ao longo de todo o prazo, cumpra o objetivo. Um IPCA+ que paga quase 8% acima da inflação por seis anos já é uma taxa historicamente alta. Na nossa leitura, o erro não está em comprar agora, e sim em comprar com dinheiro que talvez precise ser resgatado antes. Por isso, a resposta não é tudo ou nada: é dividir a carteira por prazo e objetivo.

Para quem quer ver a decisão comentada em vídeo, a análise da CNN Brasil, com mais de 49 mil visualizações, discute o recado do Banco Central e o efeito no governo, publicada no dia da reunião.

Vídeo do canal CNN Brasil, no YouTube. O player só carrega quando você clica. Assistir no YouTube
Vista noturna da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, com o Congresso Nacional iluminado ao fundo, avenidas cheias de carros e a lua no céu
A Esplanada dos Ministérios à noite: o Copom citou a política fiscal como fonte de incerteza no comunicado de novembro. Foto: Dasfour2022 / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

O passo a passo que recomendamos

Não é recomendação individual, mas é o roteiro que seguiríamos com a Selic parada em 13,75%:

  1. 1Separe a reserva de emergência primeiro. De três a seis meses de despesas em Tesouro Selic ou CDB de liquidez diária de banco sólido. Esse dinheiro não deve correr risco de preço. O passo a passo está em como montar a reserva de emergência.
  2. 2Use os pós-fixados para objetivos de até dois anos. Com o CDI alto, um CDB, LCI ou LCA com prazo casado ao objetivo rende bem e não oscila.
  3. 3Para objetivos longos, considere travar parte em IPCA+. Aposentadoria e outros planos de mais de cinco anos combinam com títulos que protegem da inflação, desde que você aceite ver o preço oscilar no caminho e leve o título até o vencimento.
  4. 4Escolha o vencimento pelo objetivo, não pela taxa. Um IPCA+ 2050 paga um pouco menos que o 2032 e oscila muito mais. Se o seu objetivo é daqui a seis anos, o título de seis anos é o mais coerente.
  5. 5Compare sempre o líquido. LCI e LCA de 90% do CDI podem render mais que um CDB de 100%. Use o comparador de investimentos antes de decidir.
  6. 6Reavalie depois de dezembro. A decisão de 9 de dezembro e as projeções do Focus dirão se a pausa é longa ou curta. Não é preciso mexer na carteira a cada reunião, mas vale revisar o plano.

Perguntas frequentes

A Selic vai voltar a cair? O mercado espera cortes em 2027, mas o Copom não se comprometeu com datas. No comunicado de novembro, o comitê disse que seguirá acompanhando o cenário para manter a restrição adequada. A próxima decisão sai em 9 de dezembro.

Com a Selic em 13,75%, quanto rende R$ 10 mil no CDB? Com o CDI em 13,65% ao ano, um CDB de 100% do CDI rende cerca de R$ 1.126 líquidos em 12 meses, pelas nossas contas, já descontado o IR de 17,5%.

Vale a pena investir em Tesouro IPCA+ agora? As taxas estão historicamente altas, perto de IPCA + 7,5% a 8% ao ano. O título faz mais sentido para objetivos longos e para quem consegue levá-lo até o vencimento, porque o preço oscila bastante no caminho.

A poupança ficou melhor com a Selic parada? Não. Com a Selic acima de 8,5%, a poupança rende 0,5% ao mês mais a TR, perto de 6,2% ao ano, bem menos que o CDI. A regra só muda se a Selic cair abaixo de 8,5%.

O que é marcação a mercado? É a atualização diária do preço de um título pelo valor que ele valeria se fosse vendido naquele dia. Ela afeta prefixados e IPCA+. Quem leva o título até o vencimento recebe a taxa contratada, independentemente das oscilações.

Resumo

O Copom manteve a Selic em 13,75% em 4 de novembro e interrompeu os cortes, com inflação acima do teto e projeção de 5,6% para 2026. Para quem investe, a pausa mantém o CDI perto de 13,65% e os pós-fixados rendendo bem, enquanto o Tesouro IPCA+ paga perto de 8% acima da inflação e o prefixado, mais de 15%. São taxas altas, mas com riscos de preço, crédito e liquidez que precisam caber no seu prazo. Para entender como as decisões do comitê são tomadas, leia como o Copom decide a Selic.

Referências

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Conteúdo educativo, sem recomendação de compra ou venda de ativos. Regras de tributação e taxas podem mudar: confirme as condições vigentes antes de investir. Rentabilidade passada não garante resultados futuros.

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Imagem: Prédios do centro do Rio de Janeiro, entre eles o edifício do Banco Central, com a Baía de Guanabara e a Ponte Rio-Niterói ao fundo. Crédito: FG fotos / Wikimedia Commons, licença CC0.