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Renda fixa

Tesouro IPCA+ e marcação a mercado: por que o título às vezes “perde” dinheiro

O Tesouro IPCA+ protege da inflação, mas o saldo pode cair de um mês para o outro. Entenda a marcação a mercado, a relação entre juros e preço, o risco de vender antes do vencimento e como escolher o prazo certo.

9 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • O Tesouro IPCA+ paga a inflação mais uma taxa real definida no dia da compra.
  • O preço do título sobe quando os juros de mercado caem e cai quando os juros sobem: é a marcação a mercado.
  • Quem leva o título até o vencimento recebe exatamente a taxa contratada, mais o IPCA do período.
  • Quanto mais longo o título, maior a oscilação de preço para a mesma variação de juros.
  • Escolha o vencimento de acordo com a data em que vai precisar do dinheiro.

Muita gente compra o Tesouro IPCA+ atraída pela promessa de "inflação mais uma taxa fixa" e leva um susto alguns meses depois: o extrato mostra um valor menor do que o aplicado. Não houve calote, nem erro do banco. O que aconteceu foi a marcação a mercado, o mecanismo que atualiza diariamente o preço de títulos de renda fixa de acordo com as taxas negociadas no mercado.

Entender esse mecanismo evita duas decisões ruins: vender no pior momento, com prejuízo, e escolher um vencimento incompatível com o objetivo. Este artigo explica como o título funciona, por que o preço oscila, quanto ele pode oscilar e como usar isso a seu favor.

O que é o Tesouro IPCA+

O Tesouro IPCA+ é um título público federal emitido pelo Tesouro Nacional. Ele paga duas parcelas: a variação do IPCA, o índice oficial de inflação medido pelo IBGE, e uma taxa real fixa, definida no momento da compra. Se você compra um título a "IPCA + 6% ao ano", o seu dinheiro é corrigido pela inflação e ainda rende 6% acima dela por ano, desde que fique até o vencimento.

Há duas versões principais:

  • Tesouro IPCA+ (sem juros semestrais): você recebe tudo de uma vez no vencimento. É o mais usado para objetivos de longo prazo, como a aposentadoria.
  • Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais: paga cupons a cada seis meses, com retenção de Imposto de Renda em cada pagamento. Serve para quem quer renda periódica.

O Tesouro também oferece o Tesouro Renda+, que paga uma renda mensal por 20 anos a partir da data escolhida, e o Tesouro Educa+, que paga mensalidades por cinco anos, pensado para custear a faculdade. Os dois seguem a mesma lógica de IPCA mais taxa real.

O que é marcação a mercado

Todo título de renda fixa tem um valor no vencimento. No Tesouro IPCA+, esse valor é de R$ 1.000 corrigidos pela inflação acumulada desde julho de 2000, data-base definida pelo Tesouro. O preço de hoje é esse valor futuro trazido a valor presente pela taxa de juros negociada hoje.

A consequência é matemática: se a taxa usada para descontar o valor futuro sobe, o preço de hoje cai; se a taxa cai, o preço sobe. Imagine que você comprou um título que paga IPCA + 6%. Uma semana depois, por causa de uma piora no cenário fiscal, novos títulos iguais passam a ser vendidos a IPCA + 7%. Ninguém pagaria por um título de 6% o mesmo preço de um de 7%. Para que o seu título fique atrativo para um comprador, o preço dele precisa cair até que a rentabilidade, para quem compra agora, também seja de 7%.

Na prática: a marcação a mercado não muda o que você vai receber no vencimento. Ela mostra quanto o título valeria se você o vendesse hoje.

Quanto o preço pode variar

A sensibilidade do preço às taxas depende do prazo. Considere um título sem cupons com vencimento em dez anos, comprado a IPCA + 6%. Se a taxa real de mercado mudar logo depois da compra, o preço se ajusta assim:

Gráfico de barras com a variação do preço de um título de dez anos: alta de 21% se a taxa cair para 4%, alta de 9,9% se cair para 5%, queda de 9% se subir para 7% e queda de 17,1% se subir para 8%
Variação imediata do preço de um título IPCA+ de dez anos, sem cupons, comprado a IPCA + 6%. Cálculo da Ventach.
Nova taxa realVariação do preço
4%+21,0%
5%+9,9%
7%−9,0%
8%−17,1%

A assimetria aparece nos números: uma queda de dois pontos na taxa gera um ganho maior do que a perda provocada por uma alta de dois pontos. Isso é chamado de convexidade e é uma característica de todo título de renda fixa.

Agora compare títulos de prazos diferentes, todos comprados a IPCA + 6%, quando a taxa sobe um ponto percentual:

Gráfico de barras horizontais com a queda de preço por prazo: 1,9% em 2 anos, 4,6% em 5 anos, 9% em 10 anos, 17,1% em 20 anos e 24,6% em 30 anos
Queda aproximada no preço quando a taxa real sobe de 6% para 7%, por prazo até o vencimento. Cálculo da Ventach.

Um título de 30 anos pode perder quase um quarto do valor com uma alta de apenas um ponto na taxa. Um de dois anos mal se move. Esse é o motivo pelo qual títulos longos são muito mais voláteis. O mesmo vale para o Tesouro Prefixado, que também é marcado a mercado. O Tesouro Selic é a exceção prática: como acompanha a taxa básica de juros todos os dias, sua oscilação é mínima.

Levar até o vencimento ou vender antes

A regra de ouro do Tesouro IPCA+ é simples: quem leva o título até o vencimento recebe a taxa contratada, independentemente do que aconteça com os juros no caminho. As oscilações do meio do caminho só se transformam em prejuízo, ou em lucro, se você vender antes.

Isso cria duas estratégias distintas:

  • Investidor de objetivo: compra um título que vence perto da data em que vai precisar do dinheiro e ignora as oscilações. A marcação a mercado é apenas informação.
  • Investidor que aposta nos juros: compra títulos longos esperando que as taxas caiam, para vender antes com lucro. É uma estratégia legítima, mas especulativa: se as taxas subirem, o prejuízo pode ser grande e durar anos.

O Tesouro recompra os títulos todos os dias úteis, pelo preço de mercado. Liquidez existe, portanto. O que não existe é garantia de preço antes do vencimento.

Por que as taxas sobem e descem

As taxas dos títulos públicos refletem as expectativas do mercado para a inflação, para a Selic e para a capacidade do governo de pagar suas dívidas. Elas sobem quando:

  • a inflação esperada aumenta e o Banco Central sinaliza juros mais altos por mais tempo;
  • o cenário fiscal piora, e os investidores pedem um prêmio maior para emprestar ao governo;
  • os juros sobem no exterior, especialmente nos Estados Unidos, tornando outros mercados mais atrativos;
  • crises de confiança fazem investidores venderem títulos às pressas.

E caem no movimento contrário. Ninguém consegue prever esses movimentos com consistência. Em vários momentos da última década, como em 2013, 2015, 2020 e 2021, altas fortes de juros provocaram quedas expressivas nos títulos mais longos, que só foram recuperadas com o tempo.

Como escolher o vencimento

O critério mais seguro é casar o vencimento com o objetivo:

  1. 1Defina quando vai precisar do dinheiro. Aposentadoria em 25 anos pede um título longo; a entrada de um imóvel em cinco anos, um título de cinco anos.
  2. 2Escolha o vencimento mais próximo dessa data, sem passar dela. Se vencer antes, você reinveste; se vencer depois, terá de vender a preço de mercado.
  3. 3Reserve o Tesouro Selic para a reserva de emergência. Dinheiro que pode ser necessário a qualquer momento não deve ficar em títulos voláteis.
  4. 4Considere o Tesouro Renda+ para a aposentadoria, se quiser transformar o patrimônio em renda mensal corrigida pela inflação.

Atenção: o rendimento exibido no extrato inclui a marcação a mercado e já desconta o Imposto de Renda que seria cobrado em uma venda hoje. Não confunda com o valor que você receberá no vencimento.

Custos e tributação

O Tesouro IPCA+ segue a tabela regressiva do Imposto de Renda, de 22,5% a 15%, cobrada sobre o rendimento no resgate ou no vencimento. Nas versões com juros semestrais, o imposto é retido a cada cupom, com a alíquota correspondente ao tempo decorrido desde a compra. A B3 cobra taxa de custódia de 0,20% ao ano sobre o valor dos títulos; no Tesouro Selic, há isenção para os primeiros R$ 10 mil investidos. Algumas corretoras não cobram taxa própria.

Para avaliar o ganho real, desconte a inflação e o imposto. Um título a IPCA + 6% com inflação de 4,5% equivale a uma taxa nominal de cerca de 10,77% ao ano. Depois do IR de 15%, o ganho real líquido fica abaixo dos 6% contratados, porque o imposto incide também sobre a parte do rendimento que só repõe a inflação.

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Conteúdo educativo. As simulações são estimativas e não constituem recomendação de investimento.

Marcação a mercado também em CDBs e fundos

A marcação a mercado não é exclusividade do Tesouro. Debêntures, CRIs, CRAs e fundos de renda fixa que carregam esses papéis também têm preços atualizados diariamente. CDBs prefixados ou atrelados ao IPCA vendidos antes do vencimento no mercado secundário passam pela mesma lógica. A diferença é que, em muitos casos, o extrato mostra apenas o valor "na curva", isto é, o rendimento contratado, e a oscilação só aparece se você tentar vender.

Fundos de renda fixa que investem em títulos longos podem ter meses negativos, mesmo sem nenhum calote. Antes de aplicar, verifique o prazo médio da carteira do fundo, informado na lâmina.

Perguntas frequentes

Posso perder dinheiro levando o título até o vencimento? Não em termos nominais: no vencimento, você recebe o valor corrigido pelo IPCA mais a taxa contratada, menos o Imposto de Renda. O risco de crédito é o do governo federal, o menor do país.

Comprar quando o título cai é uma boa ideia? Quedas de preço significam taxas maiores para quem compra depois. Para quem tem um objetivo de longo prazo, comprar em períodos de taxas altas trava uma rentabilidade real elevada até o vencimento.

Resumo

O Tesouro IPCA+ é uma das melhores ferramentas disponíveis ao investidor brasileiro para proteger o poder de compra no longo prazo. Mas ele exige entender a marcação a mercado: o preço oscila com as taxas de juros, e a oscilação é maior quanto mais longo o título. Se o vencimento estiver alinhado com o seu objetivo, as variações do caminho deixam de importar. Para revisar as outras opções do programa, leia o guia sobre qual título do Tesouro Direto escolher e o artigo sobre inflação e poder de compra.

Referências

Conteúdo educativo, sem recomendação de compra ou venda de ativos. Regras de tributação e taxas podem mudar: confirme as condições vigentes antes de investir. Rentabilidade passada não garante resultados futuros.

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Imagem: Vista aérea da Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Crédito: Arquivo/Agência Brasil / Wikimedia Commons, licença CC BY 3.0 br.