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Histórias

A crise de 2008 e os ativos inflados: lições de A Jogada do Século

O que a crise de 2008, contada em A Jogada do Século e no filme A Grande Aposta, ensina para reconhecer ativos inflados e fundos arriscados hoje.

9 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • A Jogada do Século, de Michael Lewis, publicado em 2010, conta como alguns investidores perceberam antes de todos que o mercado de hipotecas americano estava inflado.
  • O filme baseado no livro, A Grande Aposta, de 2015, ganhou o Oscar de melhor roteiro adaptado e arrecadou US$ 133 milhões no mundo.
  • Com alavancagem de 30 vezes, como a de grandes bancos antes de 2008, uma queda de 3,3% no valor dos ativos basta para zerar o capital.
  • Ativos inflados costumam combinar preço descolado da renda que geram, crédito fácil, complexidade e confiança cega em selos e avaliações.
  • A lição prática é desconfiar do que você não entende, olhar a liquidez e não aceitar uma rentabilidade alta sem saber de onde ela vem.

A crise de 2008 é a história de um mercado inteiro que acreditou num preço que não existia. Hipotecas de pessoas que não podiam pagar foram empacotadas, receberam notas máximas de risco e foram vendidas pelo mundo como investimento seguro. Quando a realidade apareceu, o sistema financeiro quase parou. Poucas obras contam isso tão bem quanto A Jogada do Século, de Michael Lewis, e o filme baseado nele, A Grande Aposta.

Já contamos a cronologia da crise em a crise de 2008 e o subprime. Este artigo tem outro objetivo: usar a história para responder a uma pergunta prática. Como reconhecer um ativo inflado, aquele cujo preço no papel está muito acima do que ele vale de verdade, antes que seja tarde? Mostramos os mecanismos que inflaram as hipotecas americanas, os sinais de alerta que aparecem em qualquer bolha e as perguntas que você pode fazer antes de investir num fundo ou num ativo que parece bom demais.

O livro e o filme

Michael Lewis publicou o livro em 2010, dois anos depois da quebra do banco Lehman Brothers. No Brasil, ele saiu como A Jogada do SéculoParceiro. A obra acompanha um pequeno grupo de investidores que, enquanto o mercado comemorava, estudou as hipotecas uma a uma, concluiu que muitas não seriam pagas e apostou contra elas. Entre eles está Michael Burry, um gestor de fundos que passou meses lendo contratos que quase ninguém lia.

Em 2015, o livro virou o filme A Grande Aposta, dirigido por Adam McKay, com Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling e Brad Pitt. O filme ganhou o Oscar de melhor roteiro adaptado e arrecadou cerca de US$ 133 milhões no mundo, com orçamento de US$ 50 milhões. É uma boa porta de entrada para quem quer entender a crise sem ler um manual de finanças, e o livro aprofunda o que o filme resume.

A lição de ler o que se compra

O detalhe mais marcante da história de Michael Burry é simples: ele leu os documentos. Enquanto grandes instituições confiavam nas notas das agências e nos modelos dos bancos, ele passou meses analisando as hipotecas que estavam dentro dos títulos. Não é preciso ser gestor de fundos para aplicar a mesma lição. Antes de investir, leia a lâmina do fundo, o regulamento, as taxas e a política de resgate. Se algo não fizer sentido, pergunte, e se a resposta não convencer, não invista.

Como as hipotecas viraram um ativo inflado

O mecanismo que o livro descreve tem quatro peças, e todas reaparecem, em outras formas, em outras bolhas:

  1. 1Crédito fácil. Bancos e financeiras emprestaram para comprar imóveis a pessoas sem renda comprovada, muitas vezes com juros baixos nos primeiros anos e que subiam depois.
  2. 2Empacotamento. Milhares de hipotecas eram reunidas em títulos, que depois eram reempacotados em produtos mais complexos, os CDOs. Cada camada afastava o investidor do risco original.
  3. 3Selos de confiança. Agências de classificação de risco deram nota máxima a muitos desses produtos. Investidores do mundo todo compraram confiando na nota, sem olhar o que havia dentro.
  4. 4Alavancagem. Bancos de investimento operavam com até 30 dólares em ativos para cada dólar de capital próprio. Com essa alavancagem, uma pequena queda no valor dos ativos basta para eliminar todo o capital.
Gráfico de barras com a queda no valor dos ativos que basta para zerar o capital, por nível de alavancagem: 33,3% com alavancagem de 3 vezes, 10% com 10 vezes, 5% com 20 vezes e 3,3% com 30 vezes
Queda no valor dos ativos que elimina todo o capital próprio, conforme a alavancagem. Cálculo da Ventach.

Quando os juros das hipotecas subiram e os preços dos imóveis pararam de crescer, os calotes começaram. Os títulos perderam valor, ninguém sabia quanto valiam de verdade, e o crédito entre os bancos congelou. O Lehman Brothers quebrou em setembro de 2008, e o governo americano aprovou um programa de até US$ 700 bilhões para estabilizar o sistema.

Casa de tijolos antiga e abandonada, com janelas vazias
Casa abandonada nos Estados Unidos: a onda de calotes deixou milhões de imóveis sem dono e derrubou o valor dos títulos lastreados em hipotecas. Foto: Nyttend / Wikimedia Commons, domínio público.

Os sinais de alerta de um ativo inflado

O que o livro mostra é que os sinais estavam à vista de quem quisesse olhar. Eles aparecem em praticamente toda bolha, da tulipomania à bolha das empresas de internet:

Quadro comparando os sinais de alerta de um ativo inflado, como preço descolado da renda, crédito fácil, complexidade, selos usados como garantia e euforia, com as perguntas que o investidor deve fazer, como de onde vem o retorno, quanto vale se precisar vender amanhã e quem ganha com a venda
Sinais de alerta de ativos inflados e as perguntas que ajudam a identificá-los. Quadro da Ventach.
  • Preço descolado da renda. Imóveis valiam cada vez mais em relação aos aluguéis e à renda das famílias. Quando o preço sobe muito mais que a renda que o ativo gera, alguém está apostando só na alta.
  • Crédito fácil alimentando a alta. Se o dinheiro emprestado é o que sustenta os preços, basta o crédito parar para os preços caírem.
  • Complexidade. Quanto mais difícil explicar o que há dentro de um produto, mais fácil esconder o risco.
  • Selos no lugar da análise. Notas, rankings e "aprovado por especialistas" não substituem entender o que se está comprando.
  • "Desta vez é diferente." A frase aparece em toda euforia, e quase sempre está errada.

Como a crise chegou ao Brasil

Os bancos brasileiros quase não tinham hipotecas americanas, mas a crise chegou por outros caminhos. O Ibovespa caiu de cerca de 73,5 mil pontos, em maio de 2008, para cerca de 29,4 mil em outubro, uma queda próxima de 60%. Algumas grandes empresas brasileiras tiveram perdas bilionárias com derivativos cambiais, contratos que apostavam na valorização contínua do real e que viraram prejuízo quando o dólar disparou.

O Banco Central reagiu liberando depósitos compulsórios para dar dinheiro aos bancos, vendendo dólares ao mercado e, a partir de janeiro de 2009, cortando a Selic de 13,75% para 8,75% ao ano até julho daquele ano. Contamos os detalhes em a crise de 2008 e o subprime.

O episódio dos derivativos cambiais repete a lição central do livro em escala menor: empresas assumiram riscos que pareciam pequenos porque o cenário vinha favorável havia anos, e descobriram o tamanho real da aposta só quando o cenário mudou.

O que mudou depois

A crise levou a regras mais rígidas para os bancos em todo o mundo. O conjunto conhecido como Basileia III aumentou as exigências de capital próprio e criou requisitos de liquidez, e o Banco Central do Brasil implementou essas regras gradualmente a partir de 2013. Os bancos ficaram mais resistentes, mas as bolhas continuaram aparecendo em outros mercados, longe dos bancos tradicionais.

Ativos que valem mais no papel do que na prática

Um ponto do livro é especialmente útil hoje: o preço de um ativo que quase não é negociado é, muitas vezes, uma estimativa, não um preço de mercado. Os títulos de hipotecas eram avaliados por modelos que supunham que os calotes continuariam baixos. Quando alguém precisou vender, descobriu que o valor real era muito menor.

O mesmo cuidado vale para qualquer investimento cujo valor é calculado por avaliação e não por negociação diária: fundos que investem em ativos ilíquidos, participações em empresas fechadas, imóveis na planta, títulos de crédito privado pouco negociados. Isso não significa que esses investimentos sejam ruins, mas que o número no extrato pode não ser o valor que você receberia ao vender. Explicamos a diferença entre preço e valor de resgate em Tesouro IPCA+ e marcação a mercado e os riscos de cada tipo de fundo em como escolher fundos de investimento.

Casa de madeira abandonada e em ruínas em Detroit, com o telhado danificado
Casa em ruínas em Detroit, uma das cidades americanas mais atingidas pela crise imobiliária. Foto: PDru2014 / Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0.

O que fazer antes de investir

  1. 1Entenda de onde vem o retorno. Juros, aluguéis, lucros ou só a expectativa de alguém pagar mais caro depois? Se você não consegue explicar, não invista.
  2. 2Pergunte quanto vale se você precisar vender amanhã. A liquidez é a hora da verdade de qualquer preço.
  3. 3Desconfie de rentabilidade alta com risco "baixo". Na renda fixa, uma taxa muito acima do mercado costuma vir com risco maior. Respeite o limite do FGC quando ele se aplica.
  4. 4Olhe quem ganha com a venda. Comissões altas podem estimular a venda de produtos inadequados.
  5. 5Cuidado com a alavancagem. Investir com dinheiro emprestado multiplica as perdas tanto quanto os ganhos.
  6. 6Diversifique. Nenhum ativo deve ser capaz de comprometer todo o patrimônio. Veja diversificação de investimentos.

A hipoteca do lado de quem paga

A crise começou com famílias que assumiram financiamentos que não cabiam no orçamento. Antes de financiar um imóvel, simule a parcela e o custo total, compare os sistemas SAC e Price e veja se a prestação continua cabendo se a renda cair:

Simule aqui: Financiamento SAC e Price

Abrir calculadora completa

Conteúdo educativo. As simulações são estimativas e não constituem recomendação de investimento.

O guia de financiamento imobiliário: SAC ou Price ajuda a escolher.

Perguntas frequentes

Qual é o livro do filme A Grande Aposta? O filme é baseado no livro The Big Short, de Michael Lewis, publicado em 2010. No Brasil, o livro saiu com o título A Jogada do Século.

O filme A Grande Aposta é baseado em fatos reais? Sim. Ele conta a história de investidores reais que apostaram contra o mercado de hipotecas americano antes da crise de 2008, como o gestor Michael Burry.

O que é um ativo inflado? É um ativo cujo preço está muito acima do valor sustentado pela renda que ele gera ou pelo que alguém pagaria numa venda imediata, em geral por causa de crédito fácil, euforia ou avaliações otimistas.

Como saber se um investimento é uma bolha? Não há um teste exato, mas sinais comuns são preços que sobem muito mais que a renda do ativo, crédito fácil, produtos complexos e a ideia de que "desta vez é diferente".

A crise de 2008 pode se repetir? As regras bancárias ficaram mais rígidas depois de 2008, mas bolhas continuam acontecendo em outros mercados. Os sinais de alerta descritos aqui valem para qualquer uma.

Resumo

A Jogada do Século, de Michael Lewis, e o filme A Grande Aposta mostram como hipotecas ruins, empacotadas, bem avaliadas e financiadas com alavancagem de até 30 vezes viraram um ativo inflado que quase derrubou o sistema financeiro. Os sinais de alerta estavam visíveis: preço descolado da renda, crédito fácil, complexidade e confiança cega em selos. Antes de investir, pergunte de onde vem o retorno, quanto o ativo vale se precisar vender e quem ganha com a venda. Para a cronologia completa, leia a crise de 2008 e o subprime.

Referências

Transparência: os links de livros e produtos deste artigo levam à Amazon. Como associada da Amazon, a Ventach recebe por compras qualificadas, sem custo adicional para você. A escolha dos livros e produtos e as opiniões do texto são independentes.

Conteúdo educativo, sem recomendação de compra ou venda de ativos. Regras de tributação e taxas podem mudar: confirme as condições vigentes antes de investir. Rentabilidade passada não garante resultados futuros.

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Imagem: Placa da rua Wall Street, em Nova York. Crédito: Acediscovery / Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0.