Estúdio da bolsa Nasdaq com painéis de cotações iluminados
Histórias

A bolha das ponto com: quando a internet enganou os investidores

Empresas sem lucro valendo bilhões, ações que dobravam no primeiro dia e a certeza de que "a nova economia" mudava tudo. Conheça a história da bolha da internet, o estouro em 2000 e por que algumas empresas sobreviveram.

4 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • O índice Nasdaq subiu mais de cinco vezes entre 1995 e março de 2000 e depois caiu cerca de 78%.
  • Muitas empresas não tinham lucro, nem um modelo de negócio viável, mas valiam bilhões.
  • A internet de fato mudou o mundo; o erro foi pagar qualquer preço por essa promessa.
  • Mesmo empresas que sobreviveram, como a Amazon, chegaram a cair mais de 90%.

Na segunda metade dos anos 1990, a internet chegou às casas e aos escritórios e parecia capaz de mudar tudo. E mudou. O problema é que, durante alguns anos, os investidores agiram como se qualquer empresa com ".com" no nome fosse se tornar gigante. O resultado foi uma das maiores bolhas da história.

A nova economia

A euforia tinha base real. A internet era uma revolução comparável à eletricidade, e empresas como Netscape, Yahoo! e Amazon cresciam em velocidade impressionante. Em 1995, o IPO da Netscape, criadora de um dos primeiros navegadores, marcou o início da corrida: as ações quase dobraram no primeiro dia de negociação.

Logo, uma ideia se espalhou: na "nova economia", as regras antigas não valiam mais. Lucro não importava; o que importava era crescer, conquistar usuários e ocupar espaço antes dos concorrentes. Métricas como "número de visitantes" e "olhos na página" substituíram o lucro como forma de avaliar empresas.

Como a bolha inflou

  • IPOs em série: centenas de empresas de internet abriram capital. Muitas tinham poucos anos de vida e prejuízos crescentes.
  • Altas no primeiro dia: era comum ações subirem 100% ou mais na estreia, atraindo ainda mais investidores.
  • Dinheiro fácil: fundos de capital de risco financiavam quase qualquer ideia com um endereço na internet.
  • Novos investidores: corretoras online facilitaram o acesso à bolsa, e muitas pessoas começaram a negociar ações em tempo integral.
  • Nomes que valiam ouro: empresas que acrescentavam ".com" ao nome viam suas ações subir só por isso.

O índice Nasdaq, que reúne muitas empresas de tecnologia, subiu de cerca de 1.000 pontos em 1995 para 5.048 pontos em 10 de março de 2000, seu pico.

Na prática: quando o preço de uma empresa depende de lucros que talvez apareçam daqui a muitos anos, qualquer mudança de expectativa provoca quedas enormes.

O estouro

Em março de 2000, a festa começou a terminar. Vários fatores se combinaram: o Federal Reserve vinha subindo os juros, empresas começaram a ficar sem dinheiro para continuar queimando caixa e grandes investidores começaram a vender.

A queda foi longa e dolorosa. Em outubro de 2002, o Nasdaq estava em cerca de 1.114 pontos, uma perda de aproximadamente 78%. Trilhões de dólares em valor de mercado desapareceram.

O símbolo: Pets.com

A Pets.com vendia produtos para animais pela internet. Tinha um fantoche de cachorro como mascote, comerciais caros, inclusive no Super Bowl, e uma lógica de negócio difícil: vendia ração, um produto pesado e barato, com frete caro, muitas vezes abaixo do custo. Abriu capital em fevereiro de 2000 e encerrou as atividades em novembro do mesmo ano, menos de um ano depois.

Quem sobreviveu

Nem todas as empresas eram castelos de areia. Algumas tinham negócios reais e se tornaram gigantes. Mas mesmo elas sofreram:

  • Amazon: as ações caíram mais de 90% entre o fim de 1999 e 2001. Quem acreditou no negócio e aguentou a queda viu a empresa se transformar em uma das mais valiosas do mundo.
  • Cisco: chegou a ser brevemente a empresa mais valiosa do mundo em março de 2000. Continuou lucrativa e relevante, mas suas ações levaram mais de duas décadas para voltar ao pico de 2000.

Atenção: a lição da Cisco é importante: mesmo uma ótima empresa pode ser um mau investimento quando o preço pago é alto demais.

O Nasdaq só voltou ao pico de 2000 em 2015, quinze anos depois.

O que diferencia uma revolução de uma bolha

O mais curioso da bolha da internet é que os otimistas estavam certos sobre a tecnologia. A internet realmente mudou o comércio, a comunicação e o trabalho. Estavam errados apenas sobre o preço e sobre quais empresas venceriam.

Isso vale para qualquer nova tecnologia: é fácil identificar que ela vai mudar o mundo, e muito difícil saber quais empresas vão capturar esse valor e quanto vale a pena pagar por elas.

Lições para o investidor

  1. 1Lucro importa. No longo prazo, o valor de uma empresa depende da sua capacidade de gerar dinheiro.
  2. 2Preço importa. Uma boa empresa comprada cara pode render pouco por muitos anos.
  3. 3Diversificação protege. Quem tinha uma carteira equilibrada, com renda fixa e empresas de diferentes setores, sofreu muito menos. Veja diversificação de investimentos.
  4. 4Desconfie do "desta vez é diferente". A frase apareceu na tulipomania, no crash de 1929 e na bolha da internet.
  5. 5Aportes regulares ajudam. Quem continuou comprando índices amplos durante a queda acumulou cotas a preços baixos. Entenda em aportes mensais e preço médio.

Warren Buffett foi muito criticado por não comprar ações de tecnologia no fim dos anos 1990. Depois do estouro, sua cautela virou exemplo. Leia as lições de Warren Buffett.

Dica: sempre que um investimento parecer uma oportunidade imperdível porque "todo mundo está ganhando", lembre-se da Pets.com. E faça uma simulação conservadora na calculadora para comparar com o que um crescimento constante pode entregar.

Conteúdo educativo, sem recomendação de compra ou venda de ativos. Regras de tributação e taxas podem mudar: confirme as condições vigentes antes de investir. Rentabilidade passada não garante resultados futuros.

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Imagem: Estúdio da bolsa Nasdaq com painéis de cotações iluminados. Crédito: Luca Marfè / Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0.