Resumo em 30 segundos
- "Entre o primeiro turno e a véspera do segundo, o mercado se posicionou para uma vitória de Flávio Bolsonaro: o Ibovespa subiu 7,70% em um dia e o dólar caiu para menos de R$ 5."
- "Com a reeleição de Lula, o Ibovespa caiu 13,88% em 26 de outubro, o circuit breaker foi acionado pela primeira vez desde 2020 e o dólar subiu mais de 8%."
- "A maior lição não é sobre quem ganhou, e sim sobre o risco de apostar a carteira em um único cenário que parece consenso."
- "Uma carteira diversificada, com renda fixa e uma parte em dólar, sofreu uma fração da queda de quem estava concentrado em ações brasileiras."
- "Vender no dia do pânico transforma uma perda temporária em definitiva; o momento é de revisar o plano, não de abandoná-lo."
Coluna de opinião. Texto assinado por Clara Menezes, persona editorial da Ventach. As opiniões são da coluna; os fatos citados têm fonte nas referências ao final, os exemplos são simulações e nada aqui é recomendação individual.
Na segunda-feira, 26 de outubro de 2026, o Ibovespa fechou em queda de 13,88%. Foi o primeiro pregão depois da reeleição de Lula, e a bolsa brasileira precisou acionar o circuit breaker, o mecanismo que interrompe os negócios quando a queda passa de 10%, pela primeira vez desde a pandemia. Na mesma sessão, o dólar subiu mais de 8%.
Recebi dezenas de mensagens naquele dia. Quase todas tinham a mesma pergunta, escrita de formas diferentes: "vendo tudo antes que piore?". Este texto é a minha resposta longa. Vou contar o que aconteceu, com números e fontes, e depois dizer o que eu penso e o que eu faria. Uma coisa eu adianto: a lição mais importante desta eleição não tem nada a ver com quem ganhou.
O que aconteceu, em fatos
Primeiro, os fatos, para que você possa separar o que é dado do que é a minha leitura.
No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) terminou em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula (PT), segundo a totalização publicada pela imprensa com dados do TSE. O mercado leu esse resultado como sinal de que a oposição tinha boas chances de vencer.
No dia seguinte, 5 de outubro, o Ibovespa subiu 7,70% e fechou aos 206.911 pontos, a maior alta diária em seis anos, segundo levantamento publicado pela InfoMoney. Os investidores estrangeiros colocaram cerca de R$ 10 bilhões na bolsa brasileira só naquele dia, um recorde. O dólar, que estava em R$ 5,22 na véspera do primeiro turno pela taxa PTAX do Banco Central, caiu para R$ 4,99.
Nas três semanas seguintes, o mercado manteve a aposta. Na sexta-feira, 23 de outubro, véspera do fim de semana do segundo turno, o Ibovespa fechou aos 205.082 pontos e o dólar estava em R$ 5,04 pela PTAX. Uma pesquisa do Citi com participantes do mercado, citada pela InfoMoney, mostrava que quase metade esperava uma alta de mais de 5% na bolsa caso Flávio vencesse. As pesquisas eleitorais, porém, mostravam empate: o Datafolha apontava 50% a 50% dos votos válidos.
No domingo, 25 de outubro, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.
Na segunda-feira, 26 de outubro, veio a reação:
- O Ibovespa fechou aos 176.608 pontos, queda de 13,88%, a maior desde março de 2020. No pior momento do dia, chegou a cair mais de 17%.
- O circuit breaker foi acionado logo após a abertura e suspendeu os negócios por cerca de meia hora.
- O dólar fechou em alta de 8,36%, a maior alta diária em 23 anos, segundo a CNN Brasil. A PTAX do dia ficou em R$ 5,50, contra R$ 5,04 na sexta-feira.
- Os juros futuros dispararam: a taxa do contrato de DI para janeiro de 2031 saiu de 12,64% para 15,19% ao ano.
- Os índices de setores mais sensíveis aos juros, como imobiliário e consumo, caíram mais de 25% no dia.
Para dar dimensão: segundo a consultoria Elos Ayta, citada pela Forbes, as maiores quedas diárias da história do Ibovespa foram de 15,83% em setembro de 1998, na crise da Rússia, de 14,98% em outubro de 1997, na crise asiática, e de 14,78% em março de 2020, na pandemia. A queda de 26 de outubro ficou muito perto dessa lista, e com uma diferença importante: as outras vieram de crises internacionais, e esta teve origem doméstica.

Por que a queda foi tão forte
Aqui começa a análise. Os fatos acima têm fonte; o que vem a seguir é a minha interpretação, apoiada no que os próprios profissionais disseram naqueles dias.
A explicação mais repetida pelos analistas foi uma só: o mercado estava posicionado para o resultado oposto. Rebecca Nossig, estrategista da Nomad, descreveu à CNN Brasil "um movimento generalizado de liquidação na bolsa", causado pelo descompasso entre as expectativas e o resultado. Gabriel Magno, da AW Capital, disse que os investidores tinham precificado uma troca de governo e uma política fiscal diferente, e que, sem isso, "é por isso que a bolsa cai tanto hoje".
Eu concordo com essa leitura e acrescento um ponto. A queda de 26 de outubro não foi apenas uma reação ao vencedor. Foi a devolução de uma aposta. Em três semanas, os preços subiram como se o resultado já estivesse decidido. Quando o resultado veio diferente, os preços não voltaram apenas ao ponto de partida: foram para baixo dele, porque muita gente precisou desfazer posições ao mesmo tempo, e porque a dúvida sobre o rumo das contas públicas, que já existia, voltou com força.
Um operador de câmbio da Correparti, Jefferson Rugik, disse à InfoMoney, dois dias antes do segundo turno, uma frase que resume tudo: o mercado "sempre tem uma leitura antecipada dos fatos", mas "às vezes ele erra também". Errou, e de forma barulhenta.
O melhor argumento contrário ao que eu vou defender
Antes de dar a minha opinião, quero apresentar o melhor argumento de quem pensa diferente, porque ele é sério.
O argumento é este: a queda foi racional, e quem vendeu fez certo. Os juros futuros subiram mais de dois pontos e meio em um dia, os títulos do Tesouro passaram a pagar taxas que não se viam há anos, e o mercado passou a cobrar um prêmio maior para financiar o governo. Se o risco fiscal aumentou de verdade, os preços das ações deveriam mesmo ser menores, porque juros mais altos reduzem o valor presente dos lucros futuros das empresas. Vender para se proteger seria, então, uma decisão defensável.
Eu levo esse argumento a sério, e ele tem uma parte verdadeira: o preço justo das ações brasileiras pode, sim, ter caído. Mas ele tem dois problemas para o investidor comum.
O primeiro é de tempo. Quem vendeu na segunda-feira vendeu depois da queda, não antes. A notícia já estava no preço no momento em que a ordem foi executada. Vender ali só faz sentido se você acredita que a queda vai continuar, e isso é, de novo, uma aposta em um cenário.
O segundo é de coerência. Quem decide vender por causa do risco fiscal precisa decidir também quando volta. Se não houver um critério claro para voltar, a venda vira uma saída permanente da bolsa, tomada no pior dia possível. A história do Ibovespa tem várias quedas de dois dígitos seguidas de recuperações que ninguém soube prever. Não sei se esta será uma delas. Ninguém sabe.
A lição que eu tiro: o perigo do consenso
Minha opinião é que a maior lição desta eleição é sobre concentração, e não sobre política.
Quem montou a carteira inteira em ações brasileiras de empresas sensíveis aos juros, contando com um resultado eleitoral, sofreu o pior dos dois mundos: ganhou pouco no rali, que veio rápido, e perdeu muito na queda, que veio em um único dia. Quem tinha uma carteira diversificada passou por um dia ruim, mas muito menos dramático.
Faça a conta com uma simulação simples. Imagine duas pessoas com R$ 100 mil na sexta-feira, 23 de outubro:
- A primeira tinha tudo em um fundo que acompanha o Ibovespa. Com a queda de 13,88%, terminou a segunda-feira com cerca de R$ 86.120.
- A segunda tinha 30% em ações brasileiras, 50% em Tesouro Selic e 20% em ativos que acompanham o dólar. As ações caíram 13,88%, o Tesouro Selic praticamente não oscilou e a parte em dólar subiu cerca de 9,2%, a variação da PTAX entre sexta e segunda. A carteira dela terminou o dia com cerca de R$ 97.670, uma perda de aproximadamente 2,3%.
A simulação é simplificada, porque cada fundo tem sua composição e seus custos, mas a ideia é robusta. A parte em dólar e a renda fixa pós-fixada fizeram exatamente o papel para o qual existem: amortecer o choque. Eu já defendi essa lógica no texto sobre dolarizar o patrimônio e no guia de alocação de ativos. Uma eleição é o teste prático dessa teoria.
E a renda fixa? Também sofreu
Muita gente se surpreendeu ao ver que não foi só a bolsa que caiu. Os títulos do Tesouro Direto com taxa prefixada e os atrelados ao IPCA também perderam valor. Segundo a InfoMoney, entre 23 e 30 de outubro, a taxa do Tesouro Prefixado 2032 subiu de 12,89% para 15,36% ao ano, e o Tesouro IPCA+ 2050 passou de IPCA + 6,42% para IPCA + 7,28%. O preço desse último caiu 17,19% na semana. A plataforma do Tesouro Direto chegou a suspender as negociações durante parte da segunda-feira.
Isso não significa que esses títulos são ruins. Significa que eles têm marcação a mercado: o preço de hoje muda quando as taxas mudam, mas quem leva o título até o vencimento recebe exatamente a taxa contratada na compra. Expliquei esse mecanismo no artigo sobre Tesouro IPCA+ e marcação a mercado. A perda só vira perda de verdade para quem vende antes.
E aqui está uma ironia: as mesmas taxas que derrubaram os preços de quem já tinha os títulos criaram uma oportunidade para quem vai comprar agora. Um título que paga a inflação mais 7% ao ano por décadas é um retorno real que poucos países do mundo oferecem a um investidor comum.

O que vem pela frente
Não vou fazer previsões, porque seria contraditório com tudo o que escrevi até aqui. Mas há alguns acontecimentos concretos no calendário que vão mexer com os preços nas próximas semanas, e vale acompanhá-los:
- 1A reunião do Copom de 3 e 4 de novembro. A Selic está em 13,75% ao ano desde setembro, depois de cinco cortes seguidos em 2026. Com o salto dos juros futuros, o mercado passou a discutir se os cortes vão parar.
- 2Os sinais do governo sobre a equipe econômica e a meta fiscal. Os analistas citaram a falta de sinais sobre esses dois temas como um dos motivos da queda. Qualquer anúncio pode aliviar ou piorar o humor.
- 3A tramitação do Orçamento de 2027. O projeto enviado ao Congresso prevê uma meta de superávit primário de 0,5% do PIB, e a forma como o Congresso tratar esse texto será um termômetro da disciplina fiscal.
Eu escrevi um texto específico sobre como a política fiscal mexe no rendimento da renda fixa, para quem quer entender esse mecanismo com calma.
O que eu faria no seu lugar
Esta é a parte prática. Não é recomendação individual, porque eu não conheço a sua situação, mas é o que eu faria e o que eu sugiro que você avalie.
- 1Não venderia nada no impulso. Se a sua carteira foi montada com um plano, uma eleição não muda o seu prazo, a sua renda nem os seus objetivos. Vender no dia do pânico é a forma mais garantida de transformar uma queda temporária em perda definitiva.
- 2Conferiria se a reserva de emergência está intacta e em liquidez diária. Quem tem a reserva separada atravessa uma crise sem precisar vender ações em baixa. Se a sua reserva estava na bolsa, este é o momento de corrigir isso, com calma, e não de entrar em pânico. O guia de reserva de emergência mostra como montar.
- 3Rebalancearia, se a carteira saiu muito do alvo. Depois de uma queda forte, a fatia em ações fica menor que a planejada. Rebalancear significa comprar um pouco de ações com os novos aportes, o que costuma ser difícil emocionalmente, mas é exatamente o que um plano disciplinado pede.
- 4Olharia para a renda fixa com taxas altas, para o longo prazo. Títulos prefixados e atrelados à inflação estão pagando taxas muito altas. Para dinheiro que você só vai usar daqui a muitos anos, levar um título desses até o vencimento é uma forma de travar um retorno real elevado. Para dinheiro de curto prazo, eu ficaria no Tesouro Selic.
- 5Manteria uma parte em dólar, sem tentar acertar o câmbio. Quem tinha essa parte agradeceu na segunda-feira. Quem não tinha pode começar aos poucos, com aportes mensais, para não comprar tudo no pico.
- 6Pararia de ler o mercado a cada hora. Nas semanas seguintes a um choque, as notícias e as cotações vão oscilar muito. Acompanhar minuto a minuto aumenta a ansiedade e a chance de uma decisão ruim.
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Abrir calculadora completaConteúdo educativo. As simulações são estimativas e não constituem recomendação de investimento.
O que me faria mudar de opinião
Eu reveria a minha posição se a deterioração das contas públicas se tornasse persistente, com sinais claros de abandono das regras fiscais e de perda de controle da inflação. Nesse cenário, eu aumentaria a parte em dólar e em títulos atrelados à inflação, com calma e por etapas. Mas faria isso por causa de uma mudança de fundamentos, e não por causa de um pregão.
Resumo
O mercado passou três semanas apostando em um resultado eleitoral e devolveu tudo, e mais um pouco, em um único dia. Os números de 26 de outubro entram para a história: Ibovespa em queda de 13,88%, circuit breaker, dólar em alta de mais de 8% e juros futuros em disparada. A minha leitura é que a lição principal não é política: é sobre o risco de concentrar a carteira em um cenário que parece certo. Quem tinha diversificação, reserva de emergência e um plano sofreu muito menos. O que eu faria agora é não vender no impulso, rebalancear com os aportes, aproveitar as taxas altas da renda fixa para o longo prazo e manter uma parte em dólar. Para entender os vieses que levam a decisões ruins nesses momentos, leia também o texto sobre erros de investidores iniciantes.
Referências
- CNN Brasil. Dólar sobe 8% e Bolsa tem maior queda desde a pandemia após vitória de Lula, 26 de outubro de 2026, com informações da Reuters e da Agência Estado.
- InfoMoney. Ibovespa em alta, dólar em queda: a reação do mercado entre 1º e 2º turno da eleição, 24 de outubro de 2026.
- InfoMoney. Títulos do Tesouro perdem até 17% na semana após 2º turno e apagam rali eleitoral, 31 de outubro de 2026.
- Forbes Brasil. Vitória de Lula causou maior queda do Ibovespa na história? Relembre os maiores circuit breakers, outubro de 2026, com dados da Elos Ayta Consultoria.
- Carta Capital. TSE encerra apuração do 1º turno, 5 de outubro de 2026.
- Tribunal Superior Eleitoral. Presidente do TSE anuncia reeleição de Lula e faz balanço do 2º turno das Eleições 2026, outubro de 2026.
- Banco Central do Brasil. Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS): série 1, dólar PTAX de venda, e série 432, meta da taxa Selic.
Conteúdo educativo, sem recomendação de compra ou venda de ativos. Regras de tributação e taxas podem mudar: confirme as condições vigentes antes de investir. Rentabilidade passada não garante resultados futuros.
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Imagem: Urna eletrônica brasileira modelo 2020, com teclado numérico e tela. Crédito: TSE - Tribunal Superior Eleitoral / Wikimedia Commons, licença Public domain.

