Urna eletrônica brasileira modelo 2020, com teclado numérico e tela
Comportamento

A bolsa caiu 13,88% em um dia: o que a reação à reeleição de Lula ensina a quem investe

O mercado apostou em um resultado, errou e pagou caro em um único pregão. Conto o que aconteceu entre o primeiro turno e a segunda-feira do circuit breaker, separo os fatos da minha opinião e digo o que eu faria agora, com a carteira de quem não vive de adivinhar eleição.

13 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • "Entre o primeiro turno e a véspera do segundo, o mercado se posicionou para uma vitória de Flávio Bolsonaro: o Ibovespa subiu 7,70% em um dia e o dólar caiu para menos de R$ 5."
  • "Com a reeleição de Lula, o Ibovespa caiu 13,88% em 26 de outubro, o circuit breaker foi acionado pela primeira vez desde 2020 e o dólar subiu mais de 8%."
  • "A maior lição não é sobre quem ganhou, e sim sobre o risco de apostar a carteira em um único cenário que parece consenso."
  • "Uma carteira diversificada, com renda fixa e uma parte em dólar, sofreu uma fração da queda de quem estava concentrado em ações brasileiras."
  • "Vender no dia do pânico transforma uma perda temporária em definitiva; o momento é de revisar o plano, não de abandoná-lo."

Coluna de opinião. Texto assinado por Clara Menezes, persona editorial da Ventach. As opiniões são da coluna; os fatos citados têm fonte nas referências ao final, os exemplos são simulações e nada aqui é recomendação individual.

Na segunda-feira, 26 de outubro de 2026, o Ibovespa fechou em queda de 13,88%. Foi o primeiro pregão depois da reeleição de Lula, e a bolsa brasileira precisou acionar o circuit breaker, o mecanismo que interrompe os negócios quando a queda passa de 10%, pela primeira vez desde a pandemia. Na mesma sessão, o dólar subiu mais de 8%.

Recebi dezenas de mensagens naquele dia. Quase todas tinham a mesma pergunta, escrita de formas diferentes: "vendo tudo antes que piore?". Este texto é a minha resposta longa. Vou contar o que aconteceu, com números e fontes, e depois dizer o que eu penso e o que eu faria. Uma coisa eu adianto: a lição mais importante desta eleição não tem nada a ver com quem ganhou.

O que aconteceu, em fatos

Primeiro, os fatos, para que você possa separar o que é dado do que é a minha leitura.

No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) terminou em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula (PT), segundo a totalização publicada pela imprensa com dados do TSE. O mercado leu esse resultado como sinal de que a oposição tinha boas chances de vencer.

No dia seguinte, 5 de outubro, o Ibovespa subiu 7,70% e fechou aos 206.911 pontos, a maior alta diária em seis anos, segundo levantamento publicado pela InfoMoney. Os investidores estrangeiros colocaram cerca de R$ 10 bilhões na bolsa brasileira só naquele dia, um recorde. O dólar, que estava em R$ 5,22 na véspera do primeiro turno pela taxa PTAX do Banco Central, caiu para R$ 4,99.

Nas três semanas seguintes, o mercado manteve a aposta. Na sexta-feira, 23 de outubro, véspera do fim de semana do segundo turno, o Ibovespa fechou aos 205.082 pontos e o dólar estava em R$ 5,04 pela PTAX. Uma pesquisa do Citi com participantes do mercado, citada pela InfoMoney, mostrava que quase metade esperava uma alta de mais de 5% na bolsa caso Flávio vencesse. As pesquisas eleitorais, porém, mostravam empate: o Datafolha apontava 50% a 50% dos votos válidos.

No domingo, 25 de outubro, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.

Na segunda-feira, 26 de outubro, veio a reação:

Gráfico de barras com o fechamento do Ibovespa: 192.145 pontos em 2 de outubro, 206.912 em 5 de outubro, 205.083 em 23 de outubro e 176.608 em 26 de outubro
Fechamento do Ibovespa em datas-chave da eleição. Fontes: InfoMoney (2, 5 e 23 de outubro) e CNN Brasil (26 de outubro).
  • O Ibovespa fechou aos 176.608 pontos, queda de 13,88%, a maior desde março de 2020. No pior momento do dia, chegou a cair mais de 17%.
  • O circuit breaker foi acionado logo após a abertura e suspendeu os negócios por cerca de meia hora.
  • O dólar fechou em alta de 8,36%, a maior alta diária em 23 anos, segundo a CNN Brasil. A PTAX do dia ficou em R$ 5,50, contra R$ 5,04 na sexta-feira.
  • Os juros futuros dispararam: a taxa do contrato de DI para janeiro de 2031 saiu de 12,64% para 15,19% ao ano.
  • Os índices de setores mais sensíveis aos juros, como imobiliário e consumo, caíram mais de 25% no dia.

Para dar dimensão: segundo a consultoria Elos Ayta, citada pela Forbes, as maiores quedas diárias da história do Ibovespa foram de 15,83% em setembro de 1998, na crise da Rússia, de 14,98% em outubro de 1997, na crise asiática, e de 14,78% em março de 2020, na pandemia. A queda de 26 de outubro ficou muito perto dessa lista, e com uma diferença importante: as outras vieram de crises internacionais, e esta teve origem doméstica.

Operadores sentados diante dos painéis luminosos de cotações da bolsa de São Paulo
Operadores diante dos painéis de cotações da bolsa de São Paulo, hoje B3. Foto: Rafael Matsunaga / Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0.

Por que a queda foi tão forte

Aqui começa a análise. Os fatos acima têm fonte; o que vem a seguir é a minha interpretação, apoiada no que os próprios profissionais disseram naqueles dias.

A explicação mais repetida pelos analistas foi uma só: o mercado estava posicionado para o resultado oposto. Rebecca Nossig, estrategista da Nomad, descreveu à CNN Brasil "um movimento generalizado de liquidação na bolsa", causado pelo descompasso entre as expectativas e o resultado. Gabriel Magno, da AW Capital, disse que os investidores tinham precificado uma troca de governo e uma política fiscal diferente, e que, sem isso, "é por isso que a bolsa cai tanto hoje".

Eu concordo com essa leitura e acrescento um ponto. A queda de 26 de outubro não foi apenas uma reação ao vencedor. Foi a devolução de uma aposta. Em três semanas, os preços subiram como se o resultado já estivesse decidido. Quando o resultado veio diferente, os preços não voltaram apenas ao ponto de partida: foram para baixo dele, porque muita gente precisou desfazer posições ao mesmo tempo, e porque a dúvida sobre o rumo das contas públicas, que já existia, voltou com força.

Um operador de câmbio da Correparti, Jefferson Rugik, disse à InfoMoney, dois dias antes do segundo turno, uma frase que resume tudo: o mercado "sempre tem uma leitura antecipada dos fatos", mas "às vezes ele erra também". Errou, e de forma barulhenta.

O melhor argumento contrário ao que eu vou defender

Antes de dar a minha opinião, quero apresentar o melhor argumento de quem pensa diferente, porque ele é sério.

O argumento é este: a queda foi racional, e quem vendeu fez certo. Os juros futuros subiram mais de dois pontos e meio em um dia, os títulos do Tesouro passaram a pagar taxas que não se viam há anos, e o mercado passou a cobrar um prêmio maior para financiar o governo. Se o risco fiscal aumentou de verdade, os preços das ações deveriam mesmo ser menores, porque juros mais altos reduzem o valor presente dos lucros futuros das empresas. Vender para se proteger seria, então, uma decisão defensável.

Eu levo esse argumento a sério, e ele tem uma parte verdadeira: o preço justo das ações brasileiras pode, sim, ter caído. Mas ele tem dois problemas para o investidor comum.

O primeiro é de tempo. Quem vendeu na segunda-feira vendeu depois da queda, não antes. A notícia já estava no preço no momento em que a ordem foi executada. Vender ali só faz sentido se você acredita que a queda vai continuar, e isso é, de novo, uma aposta em um cenário.

O segundo é de coerência. Quem decide vender por causa do risco fiscal precisa decidir também quando volta. Se não houver um critério claro para voltar, a venda vira uma saída permanente da bolsa, tomada no pior dia possível. A história do Ibovespa tem várias quedas de dois dígitos seguidas de recuperações que ninguém soube prever. Não sei se esta será uma delas. Ninguém sabe.

A lição que eu tiro: o perigo do consenso

Minha opinião é que a maior lição desta eleição é sobre concentração, e não sobre política.

Quem montou a carteira inteira em ações brasileiras de empresas sensíveis aos juros, contando com um resultado eleitoral, sofreu o pior dos dois mundos: ganhou pouco no rali, que veio rápido, e perdeu muito na queda, que veio em um único dia. Quem tinha uma carteira diversificada passou por um dia ruim, mas muito menos dramático.

Faça a conta com uma simulação simples. Imagine duas pessoas com R$ 100 mil na sexta-feira, 23 de outubro:

  • A primeira tinha tudo em um fundo que acompanha o Ibovespa. Com a queda de 13,88%, terminou a segunda-feira com cerca de R$ 86.120.
  • A segunda tinha 30% em ações brasileiras, 50% em Tesouro Selic e 20% em ativos que acompanham o dólar. As ações caíram 13,88%, o Tesouro Selic praticamente não oscilou e a parte em dólar subiu cerca de 9,2%, a variação da PTAX entre sexta e segunda. A carteira dela terminou o dia com cerca de R$ 97.670, uma perda de aproximadamente 2,3%.

A simulação é simplificada, porque cada fundo tem sua composição e seus custos, mas a ideia é robusta. A parte em dólar e a renda fixa pós-fixada fizeram exatamente o papel para o qual existem: amortecer o choque. Eu já defendi essa lógica no texto sobre dolarizar o patrimônio e no guia de alocação de ativos. Uma eleição é o teste prático dessa teoria.

Gráfico de linha com a cotação do dólar PTAX entre 2 e 30 de outubro de 2026: 5,22 em 2 de outubro, 4,99 em 5 de outubro, 5,08 em 16 de outubro, 5,04 em 23 de outubro, 5,50 em 26 de outubro, 5,33 em 27 de outubro e 5,42 em 30 de outubro
Dólar PTAX de venda em outubro de 2026, em reais. Fonte: Banco Central do Brasil, série 1 do SGS.

E a renda fixa? Também sofreu

Muita gente se surpreendeu ao ver que não foi só a bolsa que caiu. Os títulos do Tesouro Direto com taxa prefixada e os atrelados ao IPCA também perderam valor. Segundo a InfoMoney, entre 23 e 30 de outubro, a taxa do Tesouro Prefixado 2032 subiu de 12,89% para 15,36% ao ano, e o Tesouro IPCA+ 2050 passou de IPCA + 6,42% para IPCA + 7,28%. O preço desse último caiu 17,19% na semana. A plataforma do Tesouro Direto chegou a suspender as negociações durante parte da segunda-feira.

Isso não significa que esses títulos são ruins. Significa que eles têm marcação a mercado: o preço de hoje muda quando as taxas mudam, mas quem leva o título até o vencimento recebe exatamente a taxa contratada na compra. Expliquei esse mecanismo no artigo sobre Tesouro IPCA+ e marcação a mercado. A perda só vira perda de verdade para quem vende antes.

E aqui está uma ironia: as mesmas taxas que derrubaram os preços de quem já tinha os títulos criaram uma oportunidade para quem vai comprar agora. Um título que paga a inflação mais 7% ao ano por décadas é um retorno real que poucos países do mundo oferecem a um investidor comum.

Colunas curvas do Palácio do Planalto, em Brasília, com o mastro da bandeira nacional ao fundo
As colunas do Palácio do Planalto e o mastro da bandeira nacional, em Brasília. Foto: seier+seier / Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0.

O que vem pela frente

Não vou fazer previsões, porque seria contraditório com tudo o que escrevi até aqui. Mas há alguns acontecimentos concretos no calendário que vão mexer com os preços nas próximas semanas, e vale acompanhá-los:

  1. 1A reunião do Copom de 3 e 4 de novembro. A Selic está em 13,75% ao ano desde setembro, depois de cinco cortes seguidos em 2026. Com o salto dos juros futuros, o mercado passou a discutir se os cortes vão parar.
  2. 2Os sinais do governo sobre a equipe econômica e a meta fiscal. Os analistas citaram a falta de sinais sobre esses dois temas como um dos motivos da queda. Qualquer anúncio pode aliviar ou piorar o humor.
  3. 3A tramitação do Orçamento de 2027. O projeto enviado ao Congresso prevê uma meta de superávit primário de 0,5% do PIB, e a forma como o Congresso tratar esse texto será um termômetro da disciplina fiscal.

Eu escrevi um texto específico sobre como a política fiscal mexe no rendimento da renda fixa, para quem quer entender esse mecanismo com calma.

O que eu faria no seu lugar

Esta é a parte prática. Não é recomendação individual, porque eu não conheço a sua situação, mas é o que eu faria e o que eu sugiro que você avalie.

  1. 1Não venderia nada no impulso. Se a sua carteira foi montada com um plano, uma eleição não muda o seu prazo, a sua renda nem os seus objetivos. Vender no dia do pânico é a forma mais garantida de transformar uma queda temporária em perda definitiva.
  2. 2Conferiria se a reserva de emergência está intacta e em liquidez diária. Quem tem a reserva separada atravessa uma crise sem precisar vender ações em baixa. Se a sua reserva estava na bolsa, este é o momento de corrigir isso, com calma, e não de entrar em pânico. O guia de reserva de emergência mostra como montar.
  3. 3Rebalancearia, se a carteira saiu muito do alvo. Depois de uma queda forte, a fatia em ações fica menor que a planejada. Rebalancear significa comprar um pouco de ações com os novos aportes, o que costuma ser difícil emocionalmente, mas é exatamente o que um plano disciplinado pede.
  4. 4Olharia para a renda fixa com taxas altas, para o longo prazo. Títulos prefixados e atrelados à inflação estão pagando taxas muito altas. Para dinheiro que você só vai usar daqui a muitos anos, levar um título desses até o vencimento é uma forma de travar um retorno real elevado. Para dinheiro de curto prazo, eu ficaria no Tesouro Selic.
  5. 5Manteria uma parte em dólar, sem tentar acertar o câmbio. Quem tinha essa parte agradeceu na segunda-feira. Quem não tinha pode começar aos poucos, com aportes mensais, para não comprar tudo no pico.
  6. 6Pararia de ler o mercado a cada hora. Nas semanas seguintes a um choque, as notícias e as cotações vão oscilar muito. Acompanhar minuto a minuto aumenta a ansiedade e a chance de uma decisão ruim.

O que realmente constrói patrimônio continua sendo o mesmo de sempre: aportes regulares, juros compostos e tempo. Veja o efeito de investir R$ 500 por mês durante 20 anos, independentemente de quem governa:

Simule aqui: Juros compostos

Abrir calculadora completa

Conteúdo educativo. As simulações são estimativas e não constituem recomendação de investimento.

O que me faria mudar de opinião

Eu reveria a minha posição se a deterioração das contas públicas se tornasse persistente, com sinais claros de abandono das regras fiscais e de perda de controle da inflação. Nesse cenário, eu aumentaria a parte em dólar e em títulos atrelados à inflação, com calma e por etapas. Mas faria isso por causa de uma mudança de fundamentos, e não por causa de um pregão.

Resumo

O mercado passou três semanas apostando em um resultado eleitoral e devolveu tudo, e mais um pouco, em um único dia. Os números de 26 de outubro entram para a história: Ibovespa em queda de 13,88%, circuit breaker, dólar em alta de mais de 8% e juros futuros em disparada. A minha leitura é que a lição principal não é política: é sobre o risco de concentrar a carteira em um cenário que parece certo. Quem tinha diversificação, reserva de emergência e um plano sofreu muito menos. O que eu faria agora é não vender no impulso, rebalancear com os aportes, aproveitar as taxas altas da renda fixa para o longo prazo e manter uma parte em dólar. Para entender os vieses que levam a decisões ruins nesses momentos, leia também o texto sobre erros de investidores iniciantes.

Referências

Conteúdo educativo, sem recomendação de compra ou venda de ativos. Regras de tributação e taxas podem mudar: confirme as condições vigentes antes de investir. Rentabilidade passada não garante resultados futuros.

Compartilhe:
Todos os artigos

Simule agora

Abra a calculadora de juros compostos com um exemplo ligado a este artigo e ajuste à sua realidade.

Simular este exemplo

Imagem: Urna eletrônica brasileira modelo 2020, com teclado numérico e tela. Crédito: TSE - Tribunal Superior Eleitoral / Wikimedia Commons, licença Public domain.