Resumo em 30 segundos
- Um estudo com quase um século de dados americanos mostrou que a maioria das ações rendeu menos que títulos públicos de curto prazo.
- Cerca de 4% das ações responderam por toda a riqueza líquida criada pela bolsa americana no período.
- Um ETF garante que você terá as poucas grandes vencedoras, sem precisar descobrir quais são.
- Custos baixos, diversificação e menos decisões emocionais são as vantagens práticas dos fundos de índice.
- Escolher ações pode ter espaço, como uma fatia pequena para quem gosta de estudar empresas.
Opinião. Artigo da Redação Ventach com análise e posição editorial; os casos são ilustrativos, os números são simulados e nada aqui é recomendação individual.
Escolher ações é uma das partes mais divertidas de investir. Ler balanços, entender um setor, apostar que uma empresa vai crescer e acompanhar a tese se confirmar dá uma satisfação que nenhum fundo de índice oferece. Por isso, entendo quem prefere montar a própria carteira papel por papel.
A minha opinião, porém, é que para a grande maioria das pessoas, um ETF amplo deveria ser a base da parte de ações. Não porque escolher ações seja errado, mas porque a evidência mostra que é muito mais difícil do que parece, e porque um fundo de índice resolve, de uma vez, os problemas que mais derrubam o investidor individual. Vou explicar o que me convenceu.
O dado que mudou a minha cabeça
Em 2018, o professor Hendrik Bessembinder publicou um estudo com o título provocativo *Do stocks outperform Treasury bills?*, ou "as ações superam os títulos do Tesouro?". Ele analisou praticamente todas as ações negociadas nos Estados Unidos entre 1926 e 2016, quase um século de dados.
As conclusões são surpreendentes:
- A maioria das ações, cerca de quatro em cada sete, rendeu menos ao longo de sua existência na bolsa do que títulos do Tesouro americano de um mês, a aplicação mais segura que existe.
- Cerca de 4% das ações foram responsáveis por toda a riqueza líquida criada pelo mercado acionário americano no período. As outras 96%, somadas, empataram com os títulos de curto prazo.
Ou seja, a bolsa como um todo rendeu muito bem no longo prazo, mas graças a um grupo pequeno de empresas excepcionais. A ação típica, escolhida ao acaso, teve um desempenho medíocre.
O que isso significa para quem escolhe ações
Se a riqueza da bolsa vem de poucas empresas, quem monta uma carteira com dez ou quinze ações corre um risco concreto: não ter nenhuma das grandes vencedoras. Uma carteira concentrada pode render muito, se acertar uma delas, ou ficar para trás por décadas, se errar todas. A distribuição dos resultados é muito desigual.
Um ETF que replica um índice amplo resolve esse problema de forma elegante: ele compra todas as empresas do índice e, por definição, terá as grandes vencedoras, seja qual for. Você não precisa descobrir quais serão. Abre mão da chance de ter uma carteira espetacular, mas elimina a chance de ter uma carteira desastrosa por ter escolhido as empresas erradas.
Na prática: comprar o índice é uma forma de humildade. Em vez de apostar que você vai encontrar as poucas empresas que farão toda a diferença, você garante que terá todas elas.
E os profissionais?
Se escolher ações fosse fácil, os gestores profissionais, com equipes, acesso a empresas e anos de experiência, venceriam o índice com facilidade. Os relatórios SPIVA, que comparam fundos ativos com seus índices de referência em vários países, mostram o contrário: em horizontes de dez anos ou mais, a maioria dos fundos de ações fica atrás do índice depois das taxas. O artigo sobre gestão passiva ou ativa detalha esses números e o argumento matemático de William Sharpe.
Se profissionais em tempo integral têm dificuldade, eu prefiro não supor que vou fazer melhor nas horas vagas.
As vantagens práticas do ETF
Além da questão das grandes vencedoras, os fundos de índice têm vantagens que fazem diferença no dia a dia:
- Diversificação imediata: com uma única compra, você tem dezenas ou centenas de empresas.
- Custo baixo: muitos ETFs de índices amplos cobram taxas de administração bem abaixo de 0,5% ao ano.
- Menos decisões, menos erros: cada decisão de compra e venda é uma oportunidade para vieses como o excesso de confiança e o efeito disposição. Com um ETF, as decisões se resumem a quanto aportar e quando rebalancear.
- Menos tempo: não é preciso acompanhar resultados trimestrais de cada empresa.
- Rebalanceamento automático do índice: empresas que perdem relevância saem e as que crescem entram, sem que você precise fazer nada.
As desvantagens, para ser honesta
Os ETFs também têm pontos fracos que eu não escondo:
- Concentração do índice: o Ibovespa tem peso grande em poucos setores, como commodities e bancos. Comprar o índice brasileiro significa ter essa concentração.
- Imposto: ETFs de ações não têm a isenção de R$ 20 mil em vendas mensais que vale para ações individuais. Lucros na venda pagam 15%, mesmo em valores pequenos. Para quem compra e segura por muitos anos, isso pesa pouco; para quem vende com frequência, pesa mais.
- Sem dividendos na mão: muitos ETFs brasileiros reinvestem os proventos, o que é ótimo para o crescimento, mas não serve para quem quer renda mensal.
- Nenhuma proteção contra quedas: o ETF cai junto com o mercado.
Por isso, eu combino o ETF brasileiro com ETFs globais, para reduzir a concentração em poucos setores e em um único país. O artigo sobre investir no exterior mostra como fazer isso pela B3.
O espaço que eu deixo para a curiosidade
Não sou radical. Acho saudável que quem gosta de estudar empresas tenha uma fatia da carteira para isso. Uma divisão que me parece razoável:
- 1A base, de 80% a 90% da parte de ações, em ETFs amplos, brasileiros e globais.
- 2Uma fatia de 10% a 20% para ações escolhidas, com estudo e convicção, sabendo que o resultado pode ser pior que o do índice.
- 3Comparação honesta, todo ano, do desempenho da fatia escolhida com o do ETF. Se depois de vários anos a fatia ficar sistematicamente para trás, a decisão sensata é migrar para o índice.
Essa estrutura satisfaz a curiosidade sem colocar o patrimônio em risco. E a comparação anual é um exercício valioso de humildade: muitos investidores descobrem que suas escolhas não superaram o índice, mesmo quando pareciam ótimas.
O que realmente decide o resultado
No fim, a escolha entre ETF e ações individuais importa menos do que três decisões anteriores: quanto você aporta, por quanto tempo e se mantém o plano nas crises. Um investidor que aporta todos os meses em um ETF barato durante vinte anos, sem vender no pânico, quase certamente terá um resultado melhor do que alguém que escolhe ótimas ações, mas aporta pouco e entra e sai do mercado. Veja o efeito de R$ 500 por mês durante 20 anos, com uma hipótese de 9% ao ano:
Simule aqui: Juros compostos
Abrir calculadora completaConteúdo educativo. As simulações são estimativas e não constituem recomendação de investimento.
Uma conversa comum
Imagine duas amigas que começam a investir no mesmo ano. Uma estuda empresas, compra dez ações, troca algumas a cada notícia e passa horas acompanhando a bolsa. A outra compra um ETF todo mês e olha a carteira duas vezes por ano. Depois de dez anos, os resultados podem até ser parecidos, mas a segunda gastou uma fração do tempo e da energia emocional. E, se a primeira tiver escolhido as empresas erradas, a diferença pode ser grande a favor da segunda. Não é uma história real, é um cenário que a evidência torna muito plausível.
Como eu escolheria um ETF
Nem todo ETF é igual. Na hora de escolher, eu olharia:
- 1O índice replicado: amplo e diversificado é melhor do que temático e concentrado. Um ETF de um setor da moda é uma aposta, não uma base de carteira.
- 2A taxa de administração: em índices amplos, quanto menor, melhor.
- 3A liquidez: volume negociado diário suficiente para comprar e vender sem grandes diferenças de preço.
- 4O tracking error: quanto o ETF se desvia do índice ao longo do tempo. Bons fundos ficam muito próximos.
- 5O tratamento dos dividendos: se são reinvestidos ou distribuídos, conforme o seu objetivo.
- 6O tamanho do fundo: fundos muito pequenos correm o risco de ser encerrados.
Perguntas que costumo receber
"ETF não é para quem tem preguiça de estudar?" Eu diria o contrário: escolher ETF é uma conclusão de quem estudou a evidência e percebeu que estudar empresas, por si só, não garante resultado melhor. O tempo economizado pode ir para o que realmente faz diferença: aumentar a renda e os aportes.
"Não é melhor comprar só as maiores empresas do índice?" Você até pode, mas os dados de Bessembinder mostram que as grandes vencedoras do futuro nem sempre são as grandes empresas de hoje. Comprar o índice inteiro garante que você terá as que vão crescer, mesmo que hoje sejam pequenas.
"E os dividendos? Prefiro ações que pagam bem." É uma preferência legítima para quem busca renda. Existem ETFs focados em empresas pagadoras de dividendos, e também é possível ter uma fatia em ações escolhidas com esse critério. Só não confunda dividendo alto com retorno alto: o que importa é o retorno total, somando proventos e valorização.
O que me faria mudar de opinião
Se surgissem evidências consistentes, ao longo de muitos anos e em vários mercados, de que um método acessível ao investidor comum supera os índices depois dos custos, eu reconsideraria. Até hoje, os poucos métodos que parecem funcionar, como os fatores estudados por Fama e French, também podem ser acessados por fundos de índice especializados, o que reforça a minha preferência pelos fundos.
Resumo
A evidência mostra que poucas ações geram quase toda a riqueza da bolsa, e que nem profissionais conseguem identificá-las de forma consistente. Um ETF amplo garante que você terá essas empresas, com custo baixo, diversificação imediata e menos decisões emocionais. Por isso eu prefiro fundos de índice como base da carteira de ações, deixando uma fatia pequena para quem gosta de escolher papéis. Para entender como os ETFs funcionam, leia o guia completo de ETFs.
Referências
- Bessembinder, Hendrik. Do stocks outperform Treasury bills? Journal of Financial Economics, v. 129, n. 3, 2018.
- S&P Dow Jones Indices. SPIVA: fundos ativos contra índices de referência.
- Sharpe, William F. The Arithmetic of Active Management. Financial Analysts Journal, v. 47, n. 1, 1991.
- B3. ETFs listados.
- B3. Índice Bovespa (Ibovespa B3).
- Barber, Brad M.; Odean, Terrance. Trading Is Hazardous to Your Wealth. The Journal of Finance, v. 55, n. 2, 2000.
Conteúdo educativo, sem recomendação de compra ou venda de ativos. Regras de tributação e taxas podem mudar: confirme as condições vigentes antes de investir. Rentabilidade passada não garante resultados futuros.
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Imagem: Ovos de cores variadas em uma cesta de arame. Crédito: Autumn Mott autumnmott / Wikimedia Commons, licença CC0.

