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Tarifas dos EUA contra o Brasil: quem ganha, quem perde e o que eu faria com o meu dinheiro

Em pouco mais de um ano, as exportações brasileiras para os Estados Unidos passaram por tarifas de 10%, de até 50%, por uma derrubada na Suprema Corte americana e por uma nova tarifa de 25%. Explico o que vale hoje, quem perde e quem se adapta, e por que eu não mudaria a carteira por causa das manchetes.

11 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • "A Suprema Corte dos EUA derrubou, em fevereiro de 2026, as tarifas que Trump havia imposto com base em uma lei de emergência, incluindo a sobretaxa sobre o Brasil."
  • "Desde 22 de julho de 2026, vale uma nova tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, com base na Seção 301, com exceções importantes como petróleo e café."
  • "As exportações para os EUA caíram 6,5% de janeiro a setembro, mas o agro e a indústria extrativa venderam mais para o resto do mundo."
  • "Os mais prejudicados são os fabricantes de produtos industriais sem exceção, como madeira compensada, granito e sebo, com queda de 25,4% nas vendas aos EUA."
  • "Para o investidor, a lição é diversificar mercados e moedas, e não escolher ações com base em manchetes de guerra comercial."

Coluna de opinião. Texto assinado por Clara Menezes, persona editorial da Ventach. As opiniões são da coluna; os fatos citados têm fonte nas referências ao final, os exemplos são simulações e nada aqui é recomendação individual.

Se você tentou acompanhar as tarifas dos Estados Unidos contra o Brasil desde 2025, provavelmente se perdeu em algum momento. Eu entendo. Em pouco mais de um ano, tivemos uma tarifa de 10%, uma sobretaxa que levou alguns produtos a 50%, uma decisão da Suprema Corte americana derrubando quase tudo, uma tarifa global temporária e, desde julho, uma nova tarifa de 25% sobre parte das exportações brasileiras.

Neste texto, eu organizo essa história, mostro com números quem está perdendo e quem está se adaptando, e digo o que eu faria com o meu dinheiro. Adianto a minha opinião: as tarifas são um problema real para alguns setores, mas são um péssimo motivo para mudar uma carteira de investimentos bem montada.

A linha do tempo, em fatos

Primeiro, os fatos, com as fontes indicadas nas referências.

Abril de 2025. O Brasil entrou na faixa de 10% das tarifas "recíprocas" que o governo Trump aplicou a praticamente todos os parceiros comerciais.

Julho e agosto de 2025. A tarifa sobre produtos brasileiros subiu para até 50%, com efeito a partir de agosto. Na mesma época, o escritório de comércio dos Estados Unidos, o USTR, abriu uma investigação contra práticas comerciais brasileiras com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

Novembro de 2025. A tarifa geral de 10% foi retirada e as alíquotas foram reduzidas para alguns produtos, como café, carne e frutas, mas alíquotas maiores continuaram valendo para outros, segundo a InfoMoney.

20 de fevereiro de 2026. A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, por 6 votos a 3, que a lei de poderes econômicos de emergência usada por Trump, conhecida pela sigla IEEPA, não autoriza a imposição de tarifas amplas. As tarifas baseadas nessa lei caíram.

Fevereiro a julho de 2026. O governo americano adotou uma sobretaxa global temporária com base em outro dispositivo, a Seção 122, que pela lei tem duração máxima de 150 dias. Segundo a Global Trade Alert, ela expirou em 24 de julho.

15 de julho de 2026. O USTR anunciou a conclusão da investigação da Seção 301: uma tarifa de 25% sobre "certos produtos do Brasil", em vigor desde 22 de julho. Entre as práticas citadas estão regras sobre comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, o combate à corrupção, a proteção à propriedade intelectual, o acesso ao mercado de etanol e o desmatamento ilegal. O representante comercial Jamieson Greer disse que os Estados Unidos continuam "abertos a negociar" com o Brasil.

O que vale hoje

A tarifa de 25% parece enorme, mas as exceções são grandes. Segundo a análise da Global Trade Alert, dos US$ 39,6 bilhões que os Estados Unidos importaram do Brasil em 2024, apenas US$ 8,5 bilhões pagam a tarifa cheia de 25%. Produtos que somam US$ 20,1 bilhões estão isentos, com destaque para o petróleo bruto e o café. Outros US$ 7,3 bilhões estão sujeitos a tarifas setoriais próprias, como as do aço e do alumínio. As aeronaves civis, que somam US$ 3,2 bilhões, pagam uma alíquota efetiva de 2,5%.

Gráfico de barras horizontais mostrando como os US$ 39,6 bilhões importados do Brasil pelos EUA em 2024 são tratados: US$ 20,1 bilhões isentos, US$ 8,5 bilhões com tarifa cheia de 25%, US$ 7,3 bilhões com tarifas setoriais, US$ 3,2 bilhões em aeronaves com alíquota efetiva de 2,5% e US$ 0,3 bilhão em farmacêuticos
Importações americanas de produtos brasileiros em 2024, por tratamento na tarifa da Seção 301, em bilhões de dólares. Fonte: Global Trade Alert, 16 de julho de 2026.

Somando tudo, inclusive outra medida da Seção 301 ligada a trabalho forçado, a Global Trade Alert estimou que a tarifa média efetiva sobre os produtos brasileiros ficou perto de 17,7% a partir de 24 de julho. É muito mais do que antes de 2025, mas bem menos do que os 50% das manchetes do ano passado.

Quem perde

Os números de comércio mostram com clareza onde está a dor. Segundo o monitor da Amcham Brasil, com dados oficiais do Comex Stat, as exportações brasileiras para os Estados Unidos somaram US$ 27,46 bilhões de janeiro a setembro de 2026, uma queda de 6,5% em relação ao mesmo período de 2025, ou cerca de US$ 1,9 bilhão a menos.

A queda não é igual para todos. Os produtos que enfrentam as sobretaxas mais altas, entre 25% e 37,5%, foram os que mais sofreram: as vendas caíram 25,4%, de cerca de US$ 5,5 bilhões para US$ 4,1 bilhões. São produtos como sebo bovino, madeira compensada, portas e granito. Para os fabricantes desses itens, muitas vezes empresas médias que dependem do mercado americano, o impacto é direto: menos pedidos, margens menores e, em alguns casos, empregos em risco.

Plantação de café em fileiras em uma encosta de Carmo de Minas, em Minas Gerais
Cafezal em Carmo de Minas, no sul de Minas Gerais. Foto: Josue Marinho / Wikimedia Commons, licença CC BY 3.0.

Quem se adapta

O outro lado da história é menos comentado. Muitos exportadores encontraram outros compradores. Segundo o mesmo levantamento da Amcham, de janeiro a setembro de 2026, as exportações do setor agropecuário para os Estados Unidos caíram 17,8%, mas as vendas para o resto do mundo subiram 8,9%. Na indústria extrativa, as vendas para os Estados Unidos caíram 32%, enquanto as vendas para os demais países subiram 21,2%.

Gráfico de barras comparando a variação das exportações de janeiro a setembro de 2026: agropecuária, menos 17,8% para os EUA e mais 8,9% para o resto do mundo; indústria extrativa, menos 32% para os EUA e mais 21,2% para o resto do mundo
Variação das exportações brasileiras de janeiro a setembro de 2026 sobre o mesmo período de 2025. Fonte: Amcham Brasil, Monitor do Comércio Brasil–EUA, com dados do Comex Stat.

Há também produtos que voltaram a crescer depois do alívio tarifário. As exportações de carne bovina para os Estados Unidos somaram US$ 1,72 bilhão de janeiro a setembro, uma alta de 82,9%. Em setembro, as vendas totais para os Estados Unidos subiram 31,9% sobre setembro de 2025. A própria Amcham ressalva que a base de comparação é fraca, porque em setembro de 2025 as tarifas mais altas já estavam em vigor, mas o dado mostra que o comércio não parou.

O melhor argumento contrário

Quero apresentar o argumento mais forte contra a minha posição de que as tarifas não deveriam mexer na sua carteira.

Ele é assim: as tarifas são o começo de uma guerra comercial longa, e o Brasil está do lado mais fraco. Os Estados Unidos são um dos maiores compradores de produtos industrializados brasileiros, com mais valor agregado e mais empregos qualificados do que as commodities. Perder esse mercado empurraria o país ainda mais para a dependência da exportação de matérias-primas. Além disso, a investigação da Seção 301 cita temas que vão muito além do comércio, como os pagamentos digitais e o combate à corrupção, o que sugere uma disputa política difícil de resolver. Nessa visão, o investidor deveria fugir de empresas brasileiras expostas ao mercado americano e talvez do Brasil como um todo.

Eu acho que esse argumento acerta no diagnóstico de risco e erra na conclusão para o investidor comum. É verdade que a indústria exportadora sofre, e é verdade que a disputa pode durar. Mas o comércio exterior brasileiro é muito diversificado, e os dados de 2026 mostram exportadores redirecionando vendas com rapidez. E, principalmente, os preços das ações já refletem as tarifas conhecidas. Vender uma empresa depois que a notícia saiu é apostar que a situação vai piorar mais do que o mercado já espera, e essa é uma aposta que eu não sei fazer melhor do que os profissionais que acompanham o setor o dia inteiro.

Avião comercial Embraer E195-E2 em exibição em feira aeronáutica, visto de lado
Um Embraer E195-E2 em exposição no Salão de Paris de 2019. As aeronaves civis pagam alíquota efetiva de 2,5% na tarifa da Seção 301. Foto: Matti Blume / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

E o consumidor brasileiro?

As tarifas americanas incidem sobre produtos que o Brasil vende, e não sobre o que você compra no supermercado. O efeito no seu dia a dia é indireto e, em alguns casos, até no sentido oposto ao que se imagina. Quando um exportador perde vendas para fora, parte da produção pode ficar no mercado interno, o que tende a segurar os preços daquele produto aqui. Por outro lado, se a disputa comercial aumentar a incerteza sobre o Brasil e pressionar o dólar para cima, os produtos importados e os que dependem de insumos importados ficam mais caros.

Ou seja: para o consumidor, o canal mais importante das tarifas é o câmbio, e o câmbio depende de muitas outras coisas, como os juros e a política fiscal. Neste ano, por exemplo, o dólar se mexeu muito mais por causa da eleição do que por causa das tarifas, como contei no texto sobre a reação do mercado à reeleição de Lula.

O que eu faria no seu lugar

Não é recomendação individual, mas é o que eu faria com o meu dinheiro diante de uma guerra comercial que pode durar:

  1. 1Não escolheria nem venderia ações por causa de tarifas. Se você tem ações de uma exportadora, a pergunta certa é se a empresa continua sólida no longo prazo, com vários mercados e boa gestão, e não qual foi a manchete da semana. Se você não sabe responder, um fundo de índice amplo resolve o problema melhor do que tentar adivinhar vencedores.
  2. 2Manteria uma parte do patrimônio em dólar. Guerras comerciais aumentam a incerteza, e a incerteza costuma pressionar o real. Uma fatia em ativos dolarizados protege contra esse cenário, sem precisar prever nada. Expliquei como fazer isso aos poucos no texto sobre dolarizar o patrimônio.
  3. 3Diversificaria entre países. A melhor proteção contra o risco de um país, seja o Brasil, sejam os Estados Unidos, é não depender só dele. ETFs globais e BDRs negociados na B3 permitem isso com valores pequenos, como mostro no guia sobre investir no exterior.
  4. 4Se o meu emprego depende de exportação, reforçaria a reserva de emergência. Esse é o ponto que mais importa para muita gente. Quem trabalha em uma indústria que vende para os Estados Unidos tem o risco concentrado no próprio salário. Nesse caso, eu teria uma reserva maior, de nove a doze meses de gastos, em vez dos seis meses habituais.
  5. 5Acompanharia as negociações, mas sem ansiedade. O USTR disse que segue aberto a negociar, e o governo brasileiro tem interesse em reduzir as tarifas. Um acordo pode aliviar parte das sobretaxas, mas o momento é imprevisível. Um plano de longo prazo funciona com ou sem acordo.

No fim, o que constrói patrimônio é a constância. Veja o efeito de aportes regulares ao longo de dez anos, em qualquer cenário comercial:

Simule aqui: Juros compostos

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Conteúdo educativo. As simulações são estimativas e não constituem recomendação de investimento.

O que me faria mudar de opinião

Eu reveria a minha posição se as tarifas se ampliassem para os produtos hoje isentos, como o petróleo e o café, ou se outros grandes compradores, como a China e a União Europeia, adotassem medidas semelhantes. Nesse caso, o problema deixaria de ser setorial e passaria a afetar a economia brasileira como um todo, e eu aumentaria a parte da carteira fora do país. Por enquanto, os dados mostram um choque concentrado em alguns setores e um comércio exterior que se adapta.

Resumo

Depois de mais de um ano de idas e vindas, a situação em novembro de 2026 é esta: a Suprema Corte americana derrubou as tarifas de emergência, e desde 22 de julho vale uma tarifa de 25% da Seção 301 sobre parte dos produtos brasileiros, com exceções que cobrem a maior parte das vendas, como petróleo, café e aeronaves. As exportações para os Estados Unidos caíram 6,5% no ano, com perdas concentradas em produtos industriais sem exceção, enquanto o agro e a indústria extrativa venderam mais para outros países. A minha opinião é que as tarifas não justificam mudar uma carteira bem montada: diversificação entre países e moedas e uma reserva de emergência adequada protegem mais do que qualquer aposta em manchetes. Para pensar a carteira como um todo, leia o guia de alocação de ativos.

Referências

Conteúdo educativo, sem recomendação de compra ou venda de ativos. Regras de tributação e taxas podem mudar: confirme as condições vigentes antes de investir. Rentabilidade passada não garante resultados futuros.

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Imagem: Navios e contêineres no Porto de Santos, em São Paulo. Crédito: JorgeRioBRAZIL / Jorge Andrade / Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0.