Mão segurando um celular com a tela de abertura do aplicativo da Uber
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Motorista de Uber: quanto sobra de verdade no fim do mês

Motorista de Uber, 99 ou inDrive fatura bem, mas quanto sobra? Veja os números do IBGE, a conta do lucro por km e como controlar seus ganhos.

12 min de leitura

Resumo em 30 segundos

  • Segundo o IBGE, o motorista de aplicativo ganhava em média R$ 2.766 por mês em 2024, trabalhando 45,9 horas por semana, ou R$ 13,90 por hora.
  • Faturamento não é lucro: num exemplo com R$ 6.500 brutos e 4.600 km rodados no mês, combustível, manutenção, seguro e desgaste do carro levam R$ 4.494, e sobram cerca de R$ 2.006.
  • O número que decide se uma corrida vale a pena é o custo por quilômetro: no exemplo, R$ 0,74 só de combustível e manutenção, e R$ 0,98 contando todos os custos.
  • Só 25,7% dos motoristas de aplicativo contribuíam para o INSS em 2024; o MEI garante aposentadoria e auxílio-doença por R$ 86,05 por mês em 2026.
  • Anotar ganhos, quilômetros e gastos todo dia é o que separa quem lucra de quem só gira dinheiro, seja num caderno, numa planilha própria ou numa planilha pronta.

Quem dirige para Uber, 99 ou inDrive conhece a cena: o aplicativo mostra R$ 300, R$ 400 num dia bom, e a sensação é de que o mês vai fechar no azul. Aí chega a fatura do cartão com o combustível, a troca de pneus, o IPVA, e o dinheiro some. A pergunta que todo motorista de aplicativo deveria saber responder é simples, e quase ninguém responde: quanto sobra de verdade no fim do mês?

Neste artigo, mostramos o que dizem os números oficiais sobre a renda de quem trabalha com aplicativos de transporte, fazemos a conta completa de lucro de um motorista, real por real, e explicamos as três métricas que mudam a forma de trabalhar: ganho por quilômetro, custo por quilômetro e ganho por hora. No fim, falamos de INSS, MEI e de como montar um controle simples que mostra, todo dia, se você está ganhando ou perdendo dinheiro.

Quanto ganha um motorista de aplicativo, segundo o IBGE

O retrato mais completo vem da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, que tem um módulo sobre trabalho por plataformas digitais. A edição mais recente, divulgada em outubro de 2025, com dados do terceiro trimestre de 2024, mostra que:

  • o Brasil tinha 1,7 milhão de pessoas trabalhando por meio de aplicativos, 25,4% a mais do que em 2022;
  • 824 mil eram motoristas que trabalhavam por apps de transporte de passageiros, 43,8% de todos os motoristas do país;
  • o motorista de aplicativo ganhava em média R$ 2.766 por mês, contra R$ 2.425 dos demais motoristas;
  • para isso, trabalhava 45,9 horas por semana, cinco horas a mais do que os outros;
  • por hora, a diferença quase desaparece: R$ 13,90 contra R$ 13,70.

Há um detalhe importante nessa conta. A renda informada na pesquisa é a que o próprio trabalhador declara, e muita gente não desconta o desgaste do carro, que é um custo real, mas só aparece quando é hora de trocar de veículo. Por isso, o lucro de verdade costuma ser menor do que parece.

Gráfico de barras com a parcela de motoristas que contribuíam para o INSS em 2024: 25,7% entre os motoristas de aplicativo e 56,2% entre os demais motoristas
Parcela de motoristas que contribuíam para a Previdência no 3º trimestre de 2024. Fonte: IBGE, Pnad Contínua, Trabalho por meio de plataformas digitais.

O dado que mais preocupa é o da proteção. Só 25,7% dos motoristas de aplicativo contribuíam para o INSS, contra 56,2% dos demais, e a informalidade chegava a 83,6%. Sem contribuição, um acidente ou uma doença significa ficar sem renda nenhuma.

Faturamento não é lucro: a conta completa

O valor que aparece no aplicativo já vem descontada a taxa da plataforma, mas ainda não é o seu lucro. Dele saem os custos de colocar o carro na rua. Para mostrar o tamanho de cada um, montamos um exemplo. Os valores são ilustrativos e servem para você trocar pelos seus:

  • faturamento no aplicativo: R$ 6.500 no mês, cerca de 22 dias de trabalho;
  • quilômetros rodados: 4.600 km, contando os trechos até buscar o passageiro;
  • consumo do carro: 11 km por litro, com gasolina a R$ 6,50, perto da média nacional de outubro de 2026 nos levantamentos semanais da ANP;
  • manutenção e pneus: R$ 0,15 por km, um valor de referência para separar dinheiro para óleo, freios, pneus e revisões;
  • seguro, IPVA e licenciamento: R$ 400 por mês, divididos ao longo do ano;
  • desgaste do carro (depreciação): R$ 500 por mês, a perda de valor de um carro que roda muito;
  • celular e internet: R$ 100;
  • MEI: R$ 86,05 de DAS mensal, com a contribuição ao INSS.
Gráfico de barras horizontais com o destino de um faturamento de R$ 6.500 no mês: R$ 2.718 em combustível, R$ 690 em manutenção e pneus, R$ 500 de desgaste do carro, R$ 400 de seguro e IPVA, R$ 100 de celular, R$ 86 de MEI e R$ 2.006 de sobra
Para onde vai o faturamento de um motorista de aplicativo, num exemplo com 4.600 km rodados no mês. Cálculo da Ventach com valores ilustrativos.

O resultado assusta quem nunca fez a conta. Dos R$ 6.500, R$ 4.494 vão para os custos, e sobram R$ 2.006. Só o combustível leva R$ 2.718, mais de 40% do faturamento. Se o motorista trabalhou cerca de 200 horas no mês, o ganho real foi de R$ 10,03 por hora, bem abaixo do que o aplicativo sugeria.

E repare: R$ 6.500 por mês dão R$ 78 mil por ano, perto do limite de R$ 81 mil do MEI. Quem fatura mais do que isso precisa avaliar outro enquadramento, assunto para conversar com um contador.

Posto de combustível com frentistas atendendo carros e motos sob a cobertura, à beira de uma avenida
O combustível é o maior custo do motorista de aplicativo: no exemplo, leva mais de 40% do faturamento. Foto: Túllio F / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

As três métricas que todo motorista deveria acompanhar

Saber o lucro do mês é importante, mas ele chega tarde: quando você descobre, o mês já passou. Três números, acompanhados todo dia, mostram antes se o trabalho está valendo a pena.

1. Custo por quilômetro

É quanto custa cada quilômetro rodado. Ele tem duas partes:

  • custo variável: combustível e manutenção, que só existem quando o carro anda. No exemplo, R$ 6,50 ÷ 11 km = R$ 0,59 de combustível, mais R$ 0,15 de manutenção: R$ 0,74 por km;
  • custo total: inclui os gastos fixos, como seguro, IPVA e depreciação. No exemplo, R$ 4.494 ÷ 4.600 km = R$ 0,98 por km.

2. Ganho por quilômetro

É o faturamento dividido pelos quilômetros rodados, incluindo os trechos vazios. No exemplo, R$ 6.500 ÷ 4.600 km = R$ 1,41 por km. A diferença para o custo total, R$ 0,44 por km, é o seu lucro em cada quilômetro.

3. Ganho por hora

É o lucro dividido pelas horas logado no aplicativo, não só as horas com passageiro. É ele que permite comparar o aplicativo com qualquer outro trabalho. No exemplo, R$ 10,03 por hora.

Como usar isso para escolher corridas

Com o custo por km na mão, dá para avaliar uma corrida em segundos. Imagine uma oferta de R$ 12 para uma viagem de 8 km, com 3 km até o passageiro: 11 km no total. Ela paga R$ 1,09 por km. Descontado o custo variável de R$ 0,74 por km, sobram R$ 3,85, mas isso ainda não paga a parte dos custos fixos. Se as corridas do seu dia ficarem sempre perto desse valor, o mês não fecha. Muitos motoristas definem um piso, por exemplo nunca aceitar menos que o custo total por km, e passam a recusar corridas que só dão trabalho.

Por que anotar tudo muda o resultado

Quase todo motorista sabe quanto faturou na semana. Poucos sabem quanto gastaram, e menos ainda quantos quilômetros rodaram vazios. Sem esses números, não há como saber em que horário, em que região ou em que aplicativo você ganha mais por hora, nem quando é hora de trocar de carro.

O controle não precisa ser complicado. Todo dia, anote:

  1. 1o faturamento de cada aplicativo;
  2. 2os quilômetros do painel no início e no fim do expediente;
  3. 3as horas logadas;
  4. 4cada gasto: abastecimento, lavagem, alimentação na rua, manutenção.

Uma vez por mês, some os custos fixos (seguro, IPVA, parcela ou aluguel do carro) e calcule as três métricas. Em poucas semanas, os números mostram padrões que a intuição não vê.

Uma planilha pronta para quem não quer montar do zero

Dá para fazer esse controle num caderno ou numa planilha montada por você. Para quem prefere algo pronto, existe a Planilha Financeira para Motoristas de Aplicativos Uber, 99 e IndriveParceiro, um produto digital vendido pela plataforma Kiwify. Segundo o vendedor, ela foi criada para motoristas de aplicativo acompanharem receitas e despesas e saberem quanto realmente ganham. A Ventach é afiliada desse produto e recebe uma comissão se você comprar pelo link.

Antes de comprar, confira na página de pagamento o preço, o formato do arquivo e o que está incluído, que não analisamos por dentro. Nas compras pela internet, o Código de Defesa do Consumidor garante 7 dias para desistir, com devolução do valor pago. Seja qual for a ferramenta, o que faz diferença é o hábito: anotar todo dia e olhar os números toda semana.

INSS e MEI: a proteção que quase ninguém tem

Como mostrou o IBGE, três em cada quatro motoristas de aplicativo não contribuem para a Previdência. A forma mais simples de mudar isso é o MEI. A ocupação de motorista independente, por aplicativo ou não, está na lista de atividades permitidas, e o MEI paga uma guia mensal fixa, o DAS. Em 2026, com o salário mínimo de R$ 1.621, o DAS de quem presta serviço fica em R$ 86,05: R$ 81,05 de INSS e R$ 5 de ISS.

Com ele, o motorista tem direito a aposentadoria por idade, auxílio-doença, salário-maternidade e, para a família, pensão por morte. Explicamos o passo a passo e os cuidados em renda extra como MEI: impostos e o que fazer.

Vale saber também que a regulamentação do trabalho por aplicativo segue em discussão. O projeto de lei complementar enviado pelo governo em 2024, o PLP 12/2024, que trata da remuneração mínima e da contribuição ao INSS dos motoristas, ainda não foi aprovado pelo Congresso. Enquanto nada muda, a proteção depende de cada motorista.

Vista de dentro de um carro parado no trânsito, com uma fila de veículos à frente numa avenida
Congestionamento em Taubaté (SP): o tempo parado no trânsito, sem passageiro, derruba o ganho por hora do motorista. Foto: Themium / Wikimedia Commons, licença CC0.

O fundo que quase todo motorista esquece

Lembra dos R$ 500 de depreciação no exemplo? Esse dinheiro não sai do bolso todo mês, e por isso é fácil gastá-lo. Mas ele vai fazer falta: um carro que roda 4.600 km por mês chega a 55 mil km por ano e precisa ser trocado muito antes do que um carro de passeio.

A saída é tratar a depreciação como uma conta fixa e separá-la num investimento seguro, junto com a reserva para manutenções grandes. Guardando R$ 500 por mês a 13% ao ano, juntam-se R$ 20 mil em cerca de 34 meses, pelas nossas contas, o suficiente para dar uma boa entrada no próximo carro e fugir de um financiamento caro. Simule com os seus valores:

Simule aqui: Tempo para juntar

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Conteúdo educativo. As simulações são estimativas e não constituem recomendação de investimento.

Se a ideia for financiar, compare antes o custo total com o simulador de financiamento de veículos, que mostra quanto você paga de juros em cada prazo. E mantenha uma reserva de emergência para os dias em que o carro estiver na oficina.

O passo a passo que recomendamos

  1. 1Calcule o seu custo por km com o consumo real do carro e o preço do combustível na sua cidade.
  2. 2Defina um piso por km e recuse corridas que não pagam nem o custo.
  3. 3Anote tudo todo dia: faturamento, km, horas e gastos.
  4. 4Separe a depreciação e a manutenção num investimento, como uma conta fixa.
  5. 5Formalize-se como MEI, se o seu faturamento couber no limite, para ter INSS.
  6. 6Revise os números toda semana e ajuste horários e regiões onde você ganha mais por hora.

Este conteúdo é informativo e não é recomendação individual. Os custos variam conforme o carro, a cidade e o jeito de trabalhar de cada motorista.

Perguntas frequentes

Quanto ganha um motorista de Uber por mês? Segundo o IBGE, o motorista de aplicativo ganhava em média R$ 2.766 por mês em 2024, trabalhando 45,9 horas por semana. O valor varia muito conforme a cidade, as horas trabalhadas e os custos do carro.

Quanto custa por km rodar com aplicativo? Depende do carro e do combustível. Com consumo de 11 km por litro e gasolina a R$ 6,50, só o combustível custa R$ 0,59 por km. Somando manutenção, seguro, IPVA e depreciação, o custo total pode passar de R$ 0,90 por km.

Motorista de aplicativo pode ser MEI? Sim. A ocupação de motorista independente, por aplicativo ou não, é permitida no MEI. Em 2026, o DAS custa R$ 86,05 por mês e inclui a contribuição ao INSS, com limite de faturamento de R$ 81 mil por ano.

Como saber se uma corrida vale a pena? Divida o valor da corrida pelos quilômetros totais, incluindo o trecho até o passageiro, e compare com o seu custo por km. Se o valor por km ficar abaixo do custo total, a corrida não paga o carro.

Vale a pena usar uma planilha de controle? Sim. Sem anotar faturamento, quilômetros e gastos, não há como saber o lucro real nem o ganho por hora. Pode ser uma planilha própria, um aplicativo de controle ou uma planilha pronta.

Resumo

O motorista de aplicativo ganha em média R$ 2.766 por mês, segundo o IBGE, mas faturamento não é lucro. No exemplo que calculamos, de R$ 6.500 faturados, sobram cerca de R$ 2.006 depois de combustível, manutenção, seguro e desgaste do carro, ou R$ 10 por hora. O caminho para ganhar mais passa por conhecer o custo por km, recusar corridas que não pagam o carro, anotar tudo todo dia, separar dinheiro para a troca do veículo e contribuir para o INSS pelo MEI. Para organizar o restante do orçamento, veja também o método 50-30-20.

Referências

Transparência: os links marcados como "Parceiro" levam à página de compra de um produto digital de terceiros, vendido pela plataforma Kiwify. Se você comprar por eles, a Ventach recebe uma comissão, sem custo adicional para você. O produto é de responsabilidade do vendedor; as informações e os cálculos do artigo são independentes.

Conteúdo educativo, sem recomendação de compra ou venda de ativos. Regras de tributação e taxas podem mudar: confirme as condições vigentes antes de investir. Rentabilidade passada não garante resultados futuros.

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Imagem: Mão segurando um celular com a tela de abertura do aplicativo da Uber. Crédito: freestocks.org / Wikimedia Commons, licença CC0.